Texto: Adelaide Martins | Fotografia: Everything is New

Os The Kills regressaram a Portugal e em dose dupla, na capital e na invicta. Do Coliseu dos Recreios, a que assistimos, as memórias são boas e não têm fim.


Foi no passado dia 3 de Novembro que os The Kills regressaram a Portugal e, desta vez, para uma merecida apresentação em nome próprio. Primeiro no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a que a Cultur’Arte Mag assistiu e, no dia seguinte, no esgotado Hard Club, no Porto.

A aquecer os ânimos da noite estiveram as londrinas Georgia. Foi uma primeira parte à altura, cheia de energia e um rock n’ roll de encher a sala. Com um ar angelical capaz de distrair ou fazer questionar o que se iria passar, foi com acordes pujantes e contagiantes que motivaram o público desde cedo.
Donas de um peculiar drumset, com um prato erguido bem no alto, impressionaram também pela sonoridade vincada que dali era arrancada. Ao lado estavam os teclados, mais tímidos mas não menos presentes e envolventes. No final, foi notória a satisfação nos rostos de Georgia e Hinako Omori, pelo convite, pela reacção, interação e entrega do público que, embora ansioso para ver The Kills, se manteve interessado do início ao fim.

Pouco depois, e com uma afluência crescente na plateia, às 22h15 chegava o momento mais aguardado da noite. Alison Mosshart e Jamie Hince entravam em palco envoltos numa ambiência obscura, de luzes apagadas com as atenções direccionadas para o ecrã que, no fundo do palco, emoldurava uma vegetação em tons de preto e branco. Estava, assim, criado o mood perfeito para “Heart of a Dog”, um dos singles de avanço do seu mais recente álbum, “Ash & Ice”. Seguiu-se um alinhamento assertivo, sem grandes pausas ou conversas, alinhamento esse que viajou um pouco por toda a discografia da banda. “U.R.A. Fever” e “Kissy Kissy” fizeram a passagem para a recente dupla de singles “Hard Habbit to Break” e “Impossible Tracks”. Seguiu-se  um dos momentos mais aguardados de qualquer concerto seu, “Black Baloon”, numa quebra de ritmo sonoro mas fugaz no batimento cardíaco. Corações ao alto e pulmões bem cheios num coro de fazer arrepiar a alma menos sensível. “Doing It to Death” voltou ao presente, mostrando que este novo trabalho da banda não só não desiludiu como rapidamente conquistou a atenção e o carinho dos seus fãs. “Baby Says”, “DNA”, “Tape Song” e “Echo Home” seguiram-se quase que de uma assentada só, a anteceder mais um dos momentos-chave da noite: “Future Starts Slow”.

Com uma postura e uma energia únicas, Alison e Jamie demonstraram uma cumplicidade infindável e difícil de descrever, onde a comunicação fica muito aquém e longe da palavra. Ele, com uma presença mais discreta, mais fechado mas sempre interactivo com o seu público; e, ela, com todo aquele seu universo paralelo onde tudo parece ser melhor e infinito. Dona de uma voz fiel àquilo que se conhece em disco, é também marcante pela sua vasta e inigualável “body language”, da qual expele música por cada poro que tem.

“Whirling Eye”, “Pots and Pans” e “Monkey 23” marcaram o momento de saída de palco. E aquilo que parecia um fim timidamente anunciado, rapidamente se desmistificou num eco de vontades contrárias. Foram incansáveis os aplausos e o bater de pé que, numa onda colectiva, fez tremer o Coliseu.
Pouco tempo depois, os gritos vindos da fila da frente anunciavam um regresso de Alison ao palco. Com um sorriso embevecido no rosto e alguns agradecimentos – por todo o carinho e entusiasmo mostrado até então -, Alison fez derreter os corações palpitantes com a terna e melodiosa “That Love”, acompanhada apenas pela sua guitarra.  Terminado o momento “fofinho” da noite – registado por quase todos os dispositivos móveis presentes na sala -, Jamie e companhia juntaram-se a Mosshart e mostraram que a festa se faz até ao último instante. “Siberian Nights”, “Love is a Deserter” e “Sour Cherry” encerraram o alinhamento da noite e arrebataram toda a gente com uma sequência explosiva. No final, foi visível a satisfação de ambos por fazer parte daquela moldura humana e de marcar a história do Coliseu dos Recreios.
Foram diversos e notoriamente sinceros os agradecimentos e os elogios feitos ao público que, do início ao fim, fez de uma noite dita normal uma noite “muito especial”.

Agora, e passado algum tempo, é perceptível a despedida a um aparente curto prazo. O regresso da banda já está anunciado para o dia 7 de Julho de 2017, no festival NOS Alive que se realiza no Passeio Marítimo de Algés.

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