Texto: Rita Perdiz | Fotografia: Rita Perdiz

O Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), em Coimbra, foi o ponto de paragem da Viagem Literária, no dia 10 de Junho, com uma conversa entre o escritor chileno Luis Sepúlveda e o romancista norte-americano, naturalizado português, Richard Zimler.

1


Neste encontro, as obras recém-lançadas dos dois escritores foram o tema em destaque, porém, houve espaço para se falar dos “percursos artísticos e biográficos” de cada um e de “questões de actualidade”.

A conversa foi moderada pelo jornalista João Paulo Sacadura, cumprindo-se no TAGV, a 15ª etapa da Viagem Literária.

Richard e Luis são dois seres humanos com percursos de vida extraordinários e inspiradores que deliciaram o final de tarde de quem os ouviu atentamente no auditório do TAGV.

Luís Sepúlveda, de 66 anos, chileno mas a morar em Espanha, já publicou cerca de 80 livros, é um aventureiro e activista político que recorre ao mar quando precisa de concelhos. O segundo convidado, Richard Zimler, natural de Manhattan, Estados Unidos, é judeu não praticante e adora jogar basquetebol.

Luis Sepulveda, de voz grossa e sotaque carregado, começou por contar a história de como há 50 anos atrás, enquanto frequentava o ensino secundário, ganhou os seus primeiros trocos a escrever contos de carácter erótico sobre uma professora de história de arte que dava as suas aulas de mini-saia. Luis escrevia, por semana, uma pequena história de uma página e meia que de seguida era replicada em papel químico e alugada, no dia seguinte, durante 10 minutos a todos os alunos da classe da Sra. Camacho.

Já Richard, começou por relembrar a sua mãe, uma pessoa que “devorava” livros e recordar a colecção enorme que esta detinha na sua casa que, desde sempre, o fez valorizar o livro como um objecto muito valioso e importante. O escritor confessou que é entre livros que se sente bem e o quão demorou a ganhar coragem para escrever o seu primeiro romance pois é muito difícil entrar num mundo onde já existem artistas como Thomas Mann, James Joyce, Jane Austen, entre outros.

Por amor, mudou-se para terras portuguesas onde pesquisou incessantemente para escrever a sua primeira obra e após ser rejeitado por editoras americanas que, apesar de reconhecerem o nível elevado da sua obra, afirmaram que esta não iria vender. Foi então que, sem saber como funcionavam as editoras portuguesas, enviou o seu livro para a conhecida editora Maria da Piedade Ferreira, revolucionando assim a sua carreira como escritor. “É curioso como um objecto tão pequeno foi capaz de mudar a minha vida para sempre”, afirmou Richard.

De seguida, ambos os autores falaram sobre a sua relação com Portugal.

Luís, apesar de morar nas Astúrias, não resiste a passar por cá de vez em quando, não fosse ele um apaixonado pela comida e bebida portuguesa. Contou aos presentes que percorreu o país inteiro ao lado de Francisco Peixoto e a ideia que ambos tiveram de escrever em conjunto um guia gastronómico. Este tem uma relação passional por Portugal, acha o povo português discreto e deveras carinhoso pelos sentimentos de recordação e nostalgia, termos que formam a palavra saudade. O escritor confessou que em Portugal não tem leitores, mas sim militantes, sendo por isso uma pessoa afortunada.

Richard Zimler, tornou-se português há 14 anos, sendo que a dupla nacionalidade o torna um ser humano mais amplo e enriquecido. É feliz porque consegue ler Miguel Torga em português e adora a palavra lusco-fusco. Mostrou que conhece a história de Portugal melhor que alguns que cá moram, dando uma importante lição de cidadania. Contou também, a sua primeira experiência em Portugal, quando deu aulas na Escola Superior de Jornalismo e se viu obrigado a estudar gramática portuguesa num tempo em que o nível de inglês era bastante nulo, impossibilitando-o de dar as aulas na sua língua materna.

Luís Sepúlveda lançou, a 11 de Junho, o seu mais recente livro, “História de um cão chamado Leal”, editado pela Porto Editora, que aborda uma história que lhe foi “transmitida em criança pelo tio avô”, que pertencia ao povo indígena Mapuche, do Sul do Chile.

Também Richard Zimler e o pintor Júlio Pomar lançaram recentemente “O Cão que Comia a Chuva”, um livro infantil “comovente, mas cheio de humor”, que aborda o “bullying”, sublinha a Porto Editora.

2Os escritores concordaram que escrever para crianças é uma grande responsabilidade, sendo que são um público bastante exigente que obriga o autor a começar a história na primeira palavra e a acabá-la na última. “As crianças não gostam de rodeios e efeitos. Não estão para se maçarem com coisas que não interessam”, explicou Luis. Esclareceu também que os pequenos leitores têm de ser tratados com respeito e Richard confessou ainda estar em processo de aprendizagem, uma vez que as crianças possuem uma imaginação surrealista e muito difícil de alcançar pelos adultos.

A sessão concluiu-se com algumas questões feitas pelo público.

A Viagem Literária, que tem como objectivo levar escritores ao encontro dos leitores fora dos grandes centros, já percorreu várias cidades do país, como Vila Real, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora, Beja, Faro, Funchal, Ponta Delgada, Setúbal, Santarém e Leiria.

A ronda nacional da iniciativa dinamizada pela Porto Editora termina em Setembro, em Viana do Castelo.

Fala connosco, dá-nos a tua opinião!

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.