Texto: Adelaide Martins | Fotografia: Salomé Reis, Joana Mairos & Bruno Figueiredo

O segundo dia de QF’17 foi marcado pela disparidade entre o que se ouvia nos palcos Fórum e RUC.

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A noite teve início ao som da Orquestra Típica e Rancho da Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra (SF/AAC) que, por volta das 23h30, subiu ao palco Fórum Coimbra. À sua frente encontrava-se, como é habitual à hora, uma escassa plateia. Mas o hábito faz o monge e o vazio que se sentia no recinto sentia-se bem longe do palco que fora, desde o primeiro minuto, preenchido por boas energias envolvidas por uma boa disposição incansável.

De seguida, e já na ponta aposta do Parque, estava Luis Luzio ao controlo das máquinas do Palco RUC. E se, de um lado, a plateia estava muito despida, ali ainda estava nua. E, apesar da longa espera por alguma massa de público, o dj set decorreu com o espirito de quem tinha casa cheia.

E como o ritmo da Queima não pode abrandar, de regresso ao palco maior do Parque estavam já os Harpia. A jogar em casa, como dita a gíria, André Correia (bateria), Hugo Fernandes (guitarra) e Francisco Janeiro (voz/baixo) vestiram a camisola e deram cartas a invocar Camões e Shakespeare. Nesta linha, do alinhamento, destacaram-se as versões feitas de “100 Metros Sereia” dos portugueses Linda Martini e “Plug In Baby” dos britânicos Muse.

Olhando para a imponente torre da Universidade, o relógio marcava 1h25 quando, após uma ligeira espera, era Diogo Piçarra que tomava conta do palco. Sendo um dos cabeças de cartaz da noite, tinha em si parte da responsabilidade de agarrar o público – do mais fiél ao mais deambulante que, de olhos bem afastados dos palcos procuram incessantemente recolher o maior número de copos vazios para, em troca, conquistar o néctar sagrado que parece ser a cerveja gratuita. E se perante o último grupo foi dificil marcar posição, junto do primeiro foi uma tarefa muito fácil. Dono de um espectáculo muito bem montado, com uma forte aposta no audiovisual, Diogo viajou entre “O Espelho” e “d=is” e conquistou os corações mais frios. Do lado de quem assistiu “de fora”, como a nossa equipa, a expectativa era de uma plateia muito mais numerosa do que aquela que se criou até ao final do espectáculo – o que, para nós, deixa evidentes sinais de que é cada vez mais dificil contornar o fenómeno “Portagem”.

Posteriormente, e do outro lado do Parque, eram os 800 Gondomar que davam vida ao Palco RUC. Vindos de Rio Tinto, trouxeram consigo o “pêlo na venta” e a espontaneidade da gente do norte. Sem filtro ou papas na língua, vincando a boa disposição e o sentido de humor sem barreiras, foram variados os gracejos irónicos relativos ao concerto maior do palco Fórum Coimbra. Cordas partidas e pratos tocados “à cabeçada” são apenas alguns dos pormenores que se podem salientar da performance do trio. Musicalmente falando, é impossível não referir a pujança e uma energia inesgotavelmente envolvida num instrumental coeso e entrelaçado nas linhas-guia do seu garage “apunkalhado”. Com a boa disposição referida e um espirito efusivo, os 800 Gondomar foram os primeiros a conseguir uma actuação “sem espinhas”, directa ao assunto, capaz de prender o mais desatento. Em nota menos positiva fica o facto de grande parte do “power” caracteristico da banda ter ficado preso a meio caminho entre ela própria e o nosso peito, que estava quente e aberto a recebe-lo.

Na causa do problema esteve o limitador de volume obrigatório que, por lei ou sequer por mera lógica, faz sentido existir. A única lacuna em todo este processo normativo foi a ausência desse mesmo limitador no “canguru” que, a recordar as idas à Feira Popular, está estacionado em “alto e bom som” entre os dois palcos.

Depois, e ainda que com um público inferior ao que se aglomerava na outra ponta do recinto, o palco RUC ganhava forma e foi com a chegada dos Riding Pânico, às 3h20, que os estudantes – e não só – davam sinais da fibra pela qual são conhecidos. No palco, a efervescência explosiva dos 800 Gondomar deu lugar a um instrumental mais elaborado, porém envolto num ambiente mais calmo e relaxado. Com “Rabo de Cavalo” nos recém-lançamentos nacionais, os Riding Pânico apresentaram-se com uma maior maturidade musical, assumindo o palco como seu. Apesar de aparentarem acusar um cansaço natural e inerente a qualquer digressão, foram exemplo de uma actuação exímia, sem dedos a apontar.

Regressando uma última vez ao palco principal, era David Carreira que consquistava os ânimos, com um set elaborado – ainda que afirmando ser a versão minimalista. Depois de uma entrada em palco feita de capa negra aos ombros, David mostrou sentir o peso de tocar naquela que é considerada como “a maior festa académica do país”. Aparentemente sem a dita pressão, David percorreu alguns dos seus temas mais aclamados, como “Primeira Dama” que – a abrir e a encerrar o concerto – acendeu o rastilho para a bomba de estrogénio que, àquela hora, preenchia o palco principal do recinto. Com uma vincada aposta na iluminação e no campo audiovisual do espectáculo, o músico contou também com a performance quase hipnotica dos seus bailarinos e mostrou que de “Carreira” não herdou só o nome, fazendo da comunicação com o público uma peça-chave da sua actuação.

Ao final da noite, e a par com os últimos resistentes às incontornáveis tendas para dançar até ao romper da manhã, esteve a Estudantina Universitária de Coimbra. Vestidos ao máximo rigor, mostraram que esta Queima das Fitas não lhes é apenas “mais uma” mas, como sempre, e pelo contrário, muito especial. E, como tal, do alinhamento não puderam faltar temas que são também marcos da cidade, como a “Balada da Despedida do 5º Ano Jurídico” – tornando a performance muito emotiva, quer no palco quer na plateia.

A encerrar o palco RUC, esteve Eduardo Negrão que, muito rapidamente, incendiou o espirito colectivo num espaço que, automaticamente, se transformou numa discoteca a céu aberto até às 6h00.

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