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Pedro Lucas é uma das metades criativas do projecto Medeiros/Lucas e autor do projecto “O Experimentar Na M’incomoda”, inspirado no disco “O Cantar Na M’incomoda” de Carlos Medeiros, a outra metade do dueto açoreano. Juntos, cantam contos de “D. Quixote” revisitados.

Em antevisão ao concerto de dia 11 de Outubro, falámos sobre como nasceu o projecto e o que esperam do público de Coimbra neste regresso, após uma passagem pelo Salão Brazil.


Mariana Martins – Bom dia! Para começar, pergunto, como é que nasceu o projecto Medeiros/Lucas?

Pedro Lucas – Eu e o Carlos começámos a tocar juntos com um projecto que eu tinha antes. O projecto chamava-se “O Experimentar Na M’incomoda” e misturava canções e recolhas de música tradicional dos Açores. O primeiro disco foi muito focado num disco que o Carlos tinha (dos anos 90), chamado “O Cantar Na M’incomoda”. Ao fim de dois discos e de algumas colaborações, tocámos juntos ao vivo algumas vezes e, certo dia, convidei-o para produzir um disco. Achei que estava na altura de ele fazer um disco, fazer novamente um disco em nome próprio, e eu propus-me para o ajudar. Ele disse “sim senhor”, mas que fazíamos o disco a meias. E é esta a história.

 

MM – Muito bem. E, por norma, como é o processo criativo das músicas? De que forma é que elas surgem?

PL – Depende muito, não há regras. Neste caso, neste disco em concreto, sensivelmente metade do disco era composto por temas que o Carlos já trazia e que já tocava há alguns anos. A outra metade surgiu numa visita que eu fiz à ilha de São Miguel, onde estive em casa dele alguns dias e onde escrevemos alguns textos. Fomos para a biblioteca buscar alguns livros de poesia e, a partir dessas palavras, íamos encontrando muito de uma temática que já tínhamos decidido – que era esta ideia de um “Dom Quixote” errante e marinheiro. A partir desses poemas, pegámos na guitarra. À antiga! E foi assim, uma guitarra e algumas coisas com o computador. Experimentámos coisas com baterias digitais e com a minha guitarra tentámos encontrar os arranjos perfeitos, de forma a dar vida a essas canções.

 

MM – Pois, a pergunta que eu ia fazer a seguir era mesmo sobre a inspiração do álbum “Mar Aberto”. Sei que recorreram à imagem de Dom Quixote e queria que nos contassem como é que surgiu a ideia para o álbum e para as 11 canções que criaram.

PL – Sim. O Dom Quixote foi uma ideia do Carlos, ele é um aficionado pelo Dom Quixote desde os ensaios sobre o livro. O Carlos é um estudioso amador do Dom Quixote e julga que é uma personagem que, pela errância, pelo romantismo, acaba por tocar a toda a gente – pelo menos no Ocidente. Por alguma razão é um clássico e é uma referência no nosso imaginário pelo menos ocidental! Daí, ligar isso ao mar por uma ideia um pouco mais “ridícula”, digamos, pelo Mediterrâneo e pelo Atlântico. Esta imagem vem com o nosso imaginário de ilhéus, das pessoas que nasceram e viveram em ilhas. Era uma forma de juntar duas ideias, dois imaginários. Mas, temática ou conceptualmente, nunca foi. Existe uma ideia condutora, mas nunca foi pensado como um disco conceptual de fio a pavio, onde tudo tem que encaixar perfeitamente e tudo tem que se alinhar muito rigidamente por este conceito. Acabava por ser uma ideia, um fio condutor.

 

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MM – E para o futuro, já têm alguma ideia concreta?

PL – Sim! Entretanto já começámos por encontrar um escritor, em vez de ir à procura de textos antigos. Desta vez decidimos trabalhar com um escritor contemporâneo que se oferecesse ou que se disponibilizasse a escrever para nós. Já encontrámos essa pessoa e agora é um processo mais ou menos conjunto, no qual ele nos vai enviando ideias de textos e nós tentamos criar algumas melodias e harmonias a partir disso. A ideia é que haja um disco novo já para o primeiro semestre do próximo ano.

 

MM – Sei que já passaram por Coimbra, para apresentar o disco no Salão Brazil, em Abril passado. Como é que foi a reacção do público conimbricense?

PL – Foi muito bom, mas a sala estava um bocadinho vazia. O concerto foi num Sábado de Páscoa e as pessoas ficaram em casa por razões. Provavelmente estava tudo com a família! Mas quem foi estava óptimo! Algumas pessoas conheciam o nosso “Experimentar” e o trabalho individual do Carlos… Vieram cumprimentar-nos, foi excelente!

 

MM – E quais são as vossas expectativas para o espectáculo de 11 de Outubro, pelo Erro Crasso, no Aqui Base Tango?

PL – Eu não sei. Espero que tenha mais gente, os mesmos e mais! Mas vai ser um concerto diferente. Vai ser bastante mais intimista. Sou só eu e o Carlos, e as canções serão bastante mais despidas. São duas formas de apresentar o disco. E, se calhar, este formato adequa-se mais para um concerto/matinée de Domingo à tarde. Desta forma acaba, também, por dar mais ênfase aos próprios textos. E a ideia é essa! É criar um fim de tarde agradável e bom, onde toda a gente esteja bem aconchegada a ouvir algumas canções de marinheiros à beira do rio.

MM – Já conhecem a sala, o Aqui Base Tango?

PL – Não, de todo.

MM – Então vai ser uma verdadeira estreia!

PL – Vai ser uma estreia, sim. Estou muito curioso. Aliás, estamos.

 

MM – Quer o Pedro quer o Carlos são naturais dos Açores. Conheceram-se lá? Conte-nos um pouco de como tudo se desenrolou.

PL – Sim, mas nós somos de ilhas diferentes. Eu fiz força para o conhecer quando descobri o disco dele. Contactei com alguém que já o conhecia e arranjei forma de o trazer à ilha onde eu vivia, o Faial. Na altura, eu estava ligado a uma associação cultural e arranjei forma de ele vir fazer um concerto ao Faial. Improvisei uma banda… basicamente foi uma desculpa para o conhecer. Isto, no período em que ainda preparava o primeiro disco – “O Experimentar”. Mas as ilhas estão um bocado afastadas, não é? Se as pessoas não são da mesma geração e não fizerem qualquer tipo de desporto juntos ou alguma coisa do género, normalmente, ninguém se conhece entre elas.

 

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MM – Pois, torna-se mais difícil. Na vossa página do facebook, vocês declaram que “A pop cruza o folk como o Atlântico o Mediterrâneo”. Em poucas palavras, que mais podem dizer acerca desta definição?

PL – Em poucas palavras? Não sei, nem sei se fui eu que escrevi essa frase, mas faz algum sentido. Essa coisa da pop e da folk e da música erudita, essa tripartição académica dos géneros musicais é bastante fluída, e acho que cada vez mais. E o que nós fazemos é, sem dúvida, inspirarmo-nos um bocadinho nesses três mundos. No fim, conflui nessa mistura de música popular e de música tradicional. Tradicional nas inspirações melódicas, vá. E, depois, algumas ideias que nem estão de todo ligadas à música pop mainstream ou tradicional, que vêm de outros sítios. E o produto final acaba por ser sempre essa mistura de vários tipos de música e, ainda bem, a intenção é essa. O Atlântico e o Mediterrâneo têm a ver com este disco, que tem muitos sons do norte de África e muita inspiração do sul da Península Ibérica. Mas são estes dois marinheiros, que vêm de umas ilhas do Atlântico e que não têm que ser dos Açores, podem ser de outras ilhas quaisquer. E o disco acaba por, tematicamente, andar sempre um pouco ligado a esta viagem, não é? Ao movimento de um imaginário para outro imaginário! Vai buscar referências aos dois, digamos assim.

MM – Muito bem, terminámos. Agradeço o tempo disponível e, em nome da Cultur’Arte Mag, esperamos por vós, dia 11, em Coimbra!

PL – Certo, de nada. Eu é que agradeço.


Ouçam então aqui o disco “Mar Aberto”, em convite ao concerto de dia 11 (fb.com/events/500979750073232/), e conheçam tudo sobre o projecto em www.medeiroslucas.com.

 

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