Entrevista: Bruno Figueiredo

Estivemos à conversa com Paulo Zé Pimenta para falarmos um pouco do seu mais recente trabalho “Império Auto-Mano” e aproveitamos para perguntar mais algumas coisas.

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Paulo Pimenta, mais conhecido por PZ, é um artista nacional conhecido pela sua irreverência musical, assim como pelos seus pijamas, que leva para palco em todas as actuações. Mas PZ é muito mais do que salta à vista. Um músico que trata as suas letras como mensagens, que não tem medo de se rir de si mesmo e que fora dos palcos conduz também a Meifumado, editora Portuense por detrás de nomes como Corona, Expeão, Guta Naki e o próprio PZ entre outros.

Quisemos saber um pouco mais sobre o passado, presente e o futuro deste artista e do seu império auto-mano, e por isso decidimos começar a conversa da melhor das maneiras:

Bruno Figueiredo – A primeira pergunta é muito simples. “Olá, tudo bem tudo fixe?”

PZ – “Tá tudo. Espera aí um bocadinho que eu tenho que acabar isto.” [risos]

Mas é isso, a “Olá” é um bocado sobre os olás que as pessoas respondem mas que, depois, tem sempre alguma coisa na cabeça para fazer. E fala um pouco sobre esse relacionamento pessoal fora da comunicação entre as máquinas, pelas pessoas, e mais de pessoas para pessoa.

É cada vez mais difícil, porque temos cada vez menos tempo… aliás eu estou aqui a dar-te uma entrevista por Skype, não é? Não estou presencialmente contigo. E essa é a coisa boa da tecnologia, realmente. As pessoas podem comunicar estejam onde estiverem, mas há sempre um lado negro da coisa e eu acho que esse lado negro é a falta de tempo e do relacionamento cara a cara e de conhecer as pessoas, e ter tempo para estar com elas, não só através dos telemóveis ou das redes sociais, mas estar realmente com uma pessoa. É isso que eu realmente tento demonstrar com a Olá.

BF – E voltando um pouco atrás no tempo, e na tua carreira. Andas a criar canções sozinho desde os 16 anos. O que te levou a este mundo da música e à maneira como a fazes?

PZ – Na realidade comecei um pouco antes. Mas realmente foi para aí aos 16 que eu comecei a fazê-las sozinho, com um computador, um sampler, um sintetizador e um microfone. Acho que o que me levou a esse momento foi o meu amor pela música, até porque tinha várias influências e ouvia muita música. Fui também influenciado pelos discos que o meu pai e o meu irmão mais velho ouviam, por isso era casa em que nós acordávamos ao sábado e já tínhamos música a bombar… de todos os géneros.

O meu pai ouvia um pouco de Led Zepelin, claro! Era das coisas dele mais antigas. Mas é engraçado que foi ele que nos introduziu, a mim e ao meu irmão, bandas como Nirvana, Pearl Jam ou os Soundgarden. Depois também ouvíamos os Smiths, The Cure, toda essa parte dos anos 80. Eu ainda era muito novo, mas aquilo já me ia entrando na cabeça, tanto que eu detestava quando ele punha Smiths e foram precisos para aí 5 anos para perceber: “Ah! Ok, eu hoje em dia considero-os os Beatles da era moderna”, mas isso cada um tem as suas preferências. Mas foi muito essa influência familiar e eu acho também que tinha facilidade, de tocar coisas de modo auto-didata, por ouvido.

Chegava lá, pegava na guitarra ou no piano, e tocava as músicas de ouvido, conseguia replicar. Mas eu sempre gostei, desde muito novo, de fazer as minhas próprias músicas também.

“(…)não tenho medo disso
e gosto de me rir de mim próprio e do mundo.”


BF – Já te devem ter perguntado muitas vezes isto, mas o que te leva a escrever letras como as do “Cara de Chewbaca”, a da “Bestas” ou a do “Caga Nela” entre outras? O que é que te inspira a escrever assim, sobre esse tipo de temas?

PZ – Acho que é a nossa própria condição humana, é mais ao menos isso.

Eu acho que realmente somos um ser que não temos os pés assentes na terra, e pensamos que sabemos tudo mas realmente não sabemos nada. E eu gosto de brincar um bocado sobre isso, e não nos martirizarmos sobre os problemas todos do mundo. O mundo é como é e uma pessoa para tentar mudar-lo, tem que também se mudar interiormente e eu gosto de fazer isso, tendo um olhar um bocado irónico, sarcástico e por vezes cínico, e transpor esses sentimos que vão dentro de mim para música fazem-me sentido dessa maneira. É assim que eu exponho um bocado o turbilhão de pensamentos e sentimentos que tenho em relação ao mundo em que vivemos hoje em dia, não só o mundo em geral, mas também pelo facto de eu ser português e viver em Portugal, o que eu adoro, e também explorar a língua portuguesa num tom mais simples e conversacional.

Não tão poético, mas ao mesmo tempo a mensagem passar por ser exactamente simples! Às vezes gosto até de por alguma inocência, ou até infantilizar em algumas letras, até porque não tenho medo disso e gosto de me rir de mim próprio e do mundo.

BF – Chegas agora aos palcos com o teu novo trabalho, o “Império Auto-Mano”, e na descrição que nos chegou às mãos, dizes que é um disco “para contra-atacar as ordas globalizadas pelo sistema vigente.” O que queres dizer com isto?

PZ – Bem. Há um bocadinho uma referência ao império contra-ataca do Star Wars. As ondas globalizadas, lá está, é aquele mundo da globalização que se calhar se tem de virar um pouco mais para dentro e para as relações pessoais, e não se deixar ir tanto para a tecnologia, até porque, daqui a pouco, vai ser tipo exterminado implacável, as máquinas vão tomar conta de nós. Não só alegóricamente até porque já estão a tomar conta da nossa vida e eu acho que se está a tornar o símbolo da felicidade.

O ter que estar no Facebook, o ter que mostrar as suas coisas… vai por aí, não há volta a dar, mas acho que ter uma visão não tão viciada da tecnologia. Tem que se ter cuidado. Alias até é uma expressão que eu uso em 2 músicas deste “Império Auto-Mano”, uma é no “Diz-em Quando” e outra é no “Zona Zombie”.

BF – Já tens algumas faixas cá fora há algum tempo e começaste agora a apresentar o disco ao público. O que tens sentido na reação do público?

PZ – Eu acho que ainda está muito fresco. Como saiu só há um semana, acho que ainda não teve tempo de respirar.

Realmente tive com o “Caga Nela” que foi o single de antecipação, e agora com o “Olá” mas, das pessoas que têm ouvido tenho recebido muito bom feedback, e o meu próprio feedback é que este é o meu melhor álbum até à data. Mas isso pode também ser do facto deste ser o meu novo trabalho, e acho que os artistas quando lançam alguma coisa é porque gostam do trabalho, e acham que é o melhor. Mas acho que consigo ver que é o meu álbum mais maduro, não só estéticamente na parte instrumental, mas mesmo nas letras. Eu acho que há algumas músicas que saltam um bocadinho desse catálogo humorístico a que se calhar me associam e acho que também vai mais para outros lados, por exemplo o lado ainda mais Pop em algumas músicas como a “No Meu Lugar” por exemplo.

Eu acho que não deixo de ser PZ, tentado ver de fora, mas acho que está mais tradicionalmente Pop e não tão estranho como outras músicas, apesar de haver músicas como a “Fome de Lulas” ou a “Zona Zombie” que já vão para esse universo mais irrisório.

BF – Tu como músico, produtor e membro de uma editora, a Meifumado, foste entrevistado pelo Eduardo Morais para a série documental “Fios Bem Ligados”, onde falam bastante sobre o estado da música, mais especificamente da música independente, em Portugal. Como vês o estado da música no nosso país?

PZ – Ui não me perguntes isso. [risos] Eu acho que o estado da música em Portugal, do ponto de vista da editora, acabas por te guiar muito pelo ponto de vista da tua editora. Para certas pessoas está a correr bem, para outras se calhar não está tão bem. Eu acho é que há cada vez mais música feita em Portugal, e se calhar também cantada em Português.

Ao mesmo tempo, lá está a tecnologia outra vez e lá está o lado bom, também nos ajuda a espalhar a mensagem por mais pessoas do que se calhar de antes, porque tinhas um CD e tinhas de promove-lo e não havia outra maneira de promover se não, se calhar, tocar na rádio… e neste caso, continuam-se a manter esse meios de promoção mais tradicionais também, mas a tecnologia, a internet, nos dá armas que nós não tínhamos antes, às editoras independentes, para chegar ao público que nos ouve.

Agora o estado da música em Portugal… Acho que há cada vez mais festivais, acho que há mais interesse mas ao mesmo tempo, como há mais coisa e mais competição, no bom sentido, somos obrigados a trabalhar mais também. Eu lancei o “Mensagens da Nave-Mãe” há apenas 2 anos e já há artigos nos jornais a falar do renascimento do PZ, não é? Mas é assim, as pessoas procuram coisas novas e é esse o meu problema que tenho hoje em dia, porque não há tempo para as coisas se cristalizarem e porque já há outra coisa a aparecer e já há outra maneira de apresentar as coisas. Mas é esse o desafio e é isso que também torna isto tudo cada vez mais interessante.

BF – Amanhã sobes ao palco do Salão Brazil, o que é o público de Coimbra pode esperar do concerto?

PZ – Pode esperar quatro gajos em palco de pijama. Eu vou tocar com a banda pijama, com já toco há precisamente 2 anos, que é o André Simão, o Fernando Sousa e a Graciela Coelho que são músicos multi-intrumentistas. Eu também tenho que ter as minhas máquinas, lá está, eu também sou agarrado às máquinas na minha maneira de fazer música. Todos eles tocam sintetizadores mas… aliás, o André não vai poder estar neste concerto, quem vai tocar por ele vai ser o Sérgio Freitas, que é grande amigo meu e também fundador da Meifumado que vai tocar sintetizadores, e baixo também numa música, o Fernando Sousa também toca sintetizadores, baixo e guitarra também numa música, e a Graciela faz backing vocals e também toca sintetizadores.

“E nós somos um grupo de amigos. É sempre bom tocar com um conjunto de pessoas em quem confiamos, nunca tivemos uma discussão de banda, aliás, acho que é impossível acontecer no ambiente que nós temos.”

E lá está, torna especial, não só estar em palco com eles, mas também a viagem. O ir para um sítio, conhecer um sítio, janta com eles, torna tudo mais fácil e divertido, porque é também o propósito de dar concertos, não é apenas receber dinheiro, não é? Neste caso eu faço-o por prazer, mas obviamente é pelos concertos que hoje em dia os artistas recebem a sua quota parte, que também acho que merecem.

Relembramos que PZ sobe ao palco do Salão Brazil amanhã pelas 22h30, e ainda pode comprar bilhetes para o espectáculo por 7€ no Salão Brazil. Podem ainda encontrar o disco de PZ no iTunes e Spotify.

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