Texto: Bruno Figueiredo | Fotografia: Salomé Reis e Eduardo Gonçalves

Num dia em que o sol voltou a brilhar, a dicotomia Rock, Hip-Hop, fez o deleite dos fãs do NOS Primavera Sound, mas foi no palco Pitchfork que nos surpreendemos.

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Ah! O calor do sol. Essa coisa agradável que nos aquece a cara enquanto, deitados na relva do Parque da cidade o Porto, desfrutamos da música que por aqueles palcos passava. Foi com certeza a melhor surpresa do 2º dia de Festival. Vá a seguir, talvez, a Superorganism, e Idles, e Thundercat… mas não vamos adiantar tudo e comecemos do princípio.

O arranque do 2º dia de NOS Primavera Sound teve a cargo dois projectos com características muito específicas. Ambos deambulavam pelo espectro do rock psicadélico e ambos eram de Barcelos. Falamos dos Solar Corona e dos, já quase veteranos, Black Bombaim, e foi com estes últimos que decidimos começar a nossa jornada neste 2º dia de festival.

Ali, na colina do palco Super Bock, já um pouco atrasados, encontramos uma multidão de fãs que bebiam dos temas, longos, que iam par a par com o sol e relva fresca. Numa explosão de batidas, solos e o som de um baixo arranhado, os Black Bombaim levavam-nos em viagens sonoras para um universo paralelo. Um arranque fenomenal, pesado e adequado.

Foi também realmente interessante ver estes 2 projectos, conterrâneos, e com públicos muito próximos, com multidões há vista, não fazendo sentir que houvesse falta de público para ambos.

Ora, se com os Black Bombaim o rock psicadélico foi essencial para um arranque sem tretas, os Idles foram com certeza uma excelente prenda embrulhada em atitude punk.

De fundo floreado e, com certeza, bonito e arranjadinho, foi a atitude mais suja, despreocupada e arruaceira, qb, que elevou o espectáculo. Com uma presença de palco como já poucos tem nos dias de hoje, os Idles foram, sem sombra de dúvida, uma força em imparável em palco. Com momentos de diversão, crítica social e ainda local, não fosse o um momento de ouro em que o vocalista, Jon Talbot, solta a pergunta: “Mas que m***da é esta? Sou o Mick Jagger?” A pergunta, referindo-se à enorme passadeira que tinha aparecido em frente do palco NOS, foi a rampa perfeita de lançamento para o tema “Colossus”, sobre masculinidade tóxica e uma crítica às “divas” para quem se teria montado aquela rampa (entenda-se o americano A$AP Rocky).

No fim do concerto sobrou a sensação de que, entre cantos, gritos, saltos e troncos despidos e suados, foram os Idles os primeiros rock stars em palco neste 2º dia de NOS Primavera Sound.

A caminho do palco Pitchfork, com o som pesado dos Zeal & Ardor a encher a atmosfera por detrás de nós, íamos vendo o público numa das suas migrações diárias em busca do concerto de Yellow Days.

Em contraste ao que se passava ali no palco Super Bock, Yellow Days subiu a palco num misto de reverbs suaves e tons indies, tentando hipnotizar o público do Palco Pitchfork. Entre a guitarra suave e a voz aguda, mas arranhada, que soltava o grito ocasional, Yellow Days é dono de um indie slow, que vive para nos lembrar de todas as vezes que nos quisemos deitar ao sol num dia de primavera, ou verão, para o fazer, parar, e desfrutar.

De volta ao palco NOS, fomos recebidos com um: “Boa noite. Is that ok?” lançados pela vocalista dos The Breeders, ainda que não fosse de noite. Foi ao som da guitarra que arrancou, a passo arrastado, o concerto de The Breeders, mas ainda nem 30 segundos tinha passado e o ritmo, redobrado, ajudava na confirmação de que o 2º dia do NOS Primavera Sound devia muito ao Rock como elemento essencial.

Mas se o rock, nas suas vertentes mais pesadas, fez o arranque do 2º dia, foi no palco Seat com os Grizzly Bear e as sonoridades indie, que as multidões começaram a dar sinal de si.

Sem grandes floreados, com um simples “Hello Porto”, os Grizzly Bear subiram a palco acompanhados apenas de uma leve camada de fumo. É ao rufar do tambor, que arranca o concerto. Naquela hora de lusco-fusco, a energia melancólica dos americanos embalou cabeças, de olhos fechados, noite a dentro num ambiente onde o tempo se perdeu e a escuridão apareceu do nada. Os fãs mais acérrimos, como sempre, iam cantando em uníssono colados à grade, mas nem o restante público do NOS Primavera Sound escapava as suaves melodias e palavras soltadas por Ed Droste e companhia.

De volta ao palco Pitchfork, seguimos em busca do indie-pop colorido dos Superorganism. Com um universo coreografado, os Superorganism foram, e são, algo refrescante, pelo menos dentro do seu género. Com um palco onde tudo e todos, à excepção da vocalista Orono Noguchi, eram motivo de destaque, o espectáculo de luz, música, e a quase performance, seguiu noite a dentro instigando à vontade de dançar.

Na verdade, a energia de Superorganism não seria a mesma de Vince Staples, com quem concorriam a essa hora, mas não lhe ficava muito atrás.

O ambiente que se via, e vivia, dentro e fora do palco, respirava de uma adolescência que ficava bem aos londrinos. Um bem estar e alegria, misturado com uma sensação de estranheza e vergonha “juvenil”, fazia daquela hora um momento para nos deixarmos levar pela narrativa de um qualquer filme indie, onde os comentários intro-extrovertidos de Orono Noguchi poderiam, com certeza, servir o papel do narradora.

No mesmo palco, uns minutos mais tarde, serviam-nos Thundercat e uma presença forte dos universos Soul e Jazz. Ali, no palco Pitchfork, entre solos quase infinitos, batidas incontornáveis e aceleradas, ouvimos a melhor linha de baixo do NOS Primavera Sound. Thundercat é, sem dúvida, uma força desmedida onde tudo encaixa perfeitamente e faltava apenas tempo para respirar.

As mãos de Stephen Lee Bruner pareciam revestidas de electricidade, tal era a energia e a precisão daquela linha de baixo.

Fever Ray foi para nós 2 coisas: uma escolha de última hora, uma surpresa desmedida. Numa representação de empoderamento feminino, Fever Ray subiram ao palco Seat ostentando trajes ousados, vistosos e com certeza exuberantes, um olhar para Fever Ray deixava no ar altas expectativas ao que poderíamos ouvir.

Um espectáculo de luz, ritmo, forma e, acima de tudo, liberdade visual e musical. Ali, um trio de vocalistas liderava uma trupe de “freaks”, num momento cheio de ritmo, e por vezes carga sexual, onde o visual arrojado tomou atenção mas foi a música que deixou o público do NOS Primavera Sound apanhado. No final de contas, e acima de tudo, o espectáculo de Fever Ray foi uma performance, logo a seguir um concerto e no fim a música ideal para dar “um pezinho de dança”.

Por fim, e depois até de uns 15 minutos à espera que, sobre o palco NOS, houvesse uma presença mais humana que uma cabeça gigante, A$AP Rocky chegou, sozinho, saltando cheio de energia e com uma capacidade de animar multidões que por aqueles dias não teve comparação. Foi um momento puro de Hip-Hop onde um MC, um micro e um palco elevaram a performance de uma maneira singela mas, ao mesmo tempo, mais completa que outros palcos mais caóticos e preenchidos.

E foi assim que terminou o nosso segundo dia de NOS Primavera Sound, num último suspiro de energia e calor.

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