Texto: Bruno Figueiredo | Fotografia: Salomé Reis

Do primeiro dia do NOS Primavera Sound fica a noção de que este é um festival para tudo e para todos, desde o rock ao pop, do folk ao hip-hop, de Lorde a Starcrawler.

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Eis que chega o dia: o arranque do festival mais primaveril no Parque da Cidade do Porto. A sensação de medo constante, pela chuva que caia por aquelas horas, deixava-nos com um pé atrás em relação à estadia de 3 dias no NOS Primavera Sound, mas quis o destino que as nuvens se deixassem de brincadeiras e, ainda sob céus cinzentos, arrancou a 7ª edição do festival.

Não fosse o mau tempo também, teríamos chegado mais cedo, e enquanto entravamos recinto a dentro, pouco depois das 17h30, iamos sendo embalados pelo calor musical dos Fogo-Fogo. Mas quis o destino, e a nossa escolha no line-up também, que o nosso 1º momento musical estivesse a cargo dos Foreign Poetry.

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O projecto, com origem num cruzamento do Reino Unido e Austria mas gravação e distribuição pela portuguesa Pataca Discos, foi, para nós, uma das mais esperadas passagens pelos palcos do festival. Fosse pela onda de secretismo que envolveu o nome, ou até porque a primeira vez que deram sinais de vida foi como um nome no cartaz do NOS Primavera Sound, mas os Foreign Poetry traziam consigo promessa de algo especial. Assim a consagração desse secretismo, deu-se sobre o palco Super Bock como uma das primeiras bandas a abrir o festival, ainda com alguns pingos de chuva metidos ao barulho.

A suavidade do indie-rock dos Foreign Poetry viveu de batidas largas, teclados graves e uma espécie de soturnidade e tristeza na voz de Danny Geffin que nos embalou e suavizou a entrada nublada no NOS Primavera Sound. Dos minutos que pudemos ver, sentimos falta de um concerto mais íntimo para poder desfrutar dos temas, mas o público que se distribuía sentado pela colina molhada, alguns de olhos fechados, confirmavam que a música dos Foreign Poetry era a proposta certa para o arranque da 1ª tarde de festival.

Mais tarde estivemos um pouco à conversa com Danny Geffin e Moritz Kerschbaumer, cabecilhas deste projecto.

Foi ao tom amarrado dos teclados,  que as Waxahatchee subiram ao palco NOS despertando interesse no público que ia chegando à colina maior do festival. A voz de tom suave de Katie Crutchfield, empoderada pelos tons monocórdicos dos teclados, foi, logo aí, elemento cativador e assim que irrompeu a primeira batida, a sonoridade indie-rock de Waxahatchee elevou-se de ritmo e energia mas, ainda cinzento como o céu, o público demorou a responder. Daí em diante o palco era delas, que de tom rock, vozes suaves e energia contida foram dando, ao público do NOS Primavera Sound, a banda sonora ideal para dias cinzentos e tardes deitados na relva a ver as nuvens passar.

Mas se da suavidade de Waxahatchee se poderia sentir calma e balanço, com os The Twilight Sad a energia era outra. Tons rasgados de tristeza rock, acompanhados de uma pitada de loucura pelo frontman James Graham definiam a actuação. Foi ali, em frente ao novo palco “Secundário” (sim porque, de secundário, o palco Seat nada tinha), que vimos um concerto que, de monótono, só na constante presença em palco da banda e pudemos sentir um crescendo emocional tomar conta do palco, do publico e até da atmosfera, ecoando simultaneamente energia e sofridão.

Houve ainda tempo para relatos do concerto de Starcrawler no palco Super Bock, mas com pena não presenciamos esse momento, deixando-nos ficar perto do palco Seat para esperar Josh Tillman ou, como é mais conhecido, Father John Misty. Ali já se via uma multidão migrando sobre a colina para se juntar ao palco, mesmo ao pé da entrada do recinto, e não fossem os problemas técnicos que atrasaram o concertos uns 15 minutos, talvez alguns não conseguissem receber tão entusiasticamente o artista.

Foi então que ao tom suave de um piano, irrompido por um trompete, que o concerto arrancou. Daquele silêncio cansativo nasceu um enorme ensemble em palco, com Josh Tillman a liderar a viagem pelas suas histórias e contos, presentes no seu mais recente trabalho, “God’s Favourite Customer“, e não só. Um pouco preso à guitarra, e numa postura pouco energética, ou seja pouco habitual para o cantor, Josh ia cantando os seus temas com precisão quase médica. Mas chegados ao 3º tema, “Total Entertainment Forever”, a típica irreverencia em palco despertou. Dançando de guitarra na mão, ou de repente já sem ela, era no movimento que Father John Misty se dava ao público, até porque o dom da palavra ficava-se pelas música e não servia à comunicação com os fãs.

Com êxitos como Honeybear ou Mister Tillmam, Father John Misty deu ao público exactamente o que este esperava, um espectáculo de boa música, belas histórias e tudo aquilo que o seu universo acarreta.

Foi depois de uma jornada ao som de um indie-folk com toque de rock, que passamos à hora cheia de pop com a estrela neo-zelandesa Lorde. A jovem, que acaba de lançar o seu 2º albúm, regressou aos palcos com um trabalho mais maduro e pessoal, e o público do NOS Primavera Sound esperava ansiosamente pelo maior nome da noite, e um dos maiores do festival.

Espanto foi o nosso que, como “música de espera”, quem se ouvia em palco não era Lorde mas sim Kate Bush que, pelos ecos à distância, parecia também ser favorita do público do festival. Na colina, havia muito espaço vazio, talvez até um pouco mais do que o esperado, mas assim que os bailarinos que acompanhavam a estrela subiram a palco, os gritos dos milhares de fãs, muitos deles menores de idade, encheram o ar que por ali se respirava. Foi ao tom de “Sober” que começou então o concerto.

Dos êxitos de hoje aos de “Pure Heroine”, todo o público seguiu Lorde numa viagem emocional a muito mais do que apenas a sua música.

Sim, é verdade que a música pop da artista neo-zelandesa pode soar a algo mais comercial do que habitualmente nos chega no Parque da Cidade do Porto, mas a relação emocional que a artista criou com os seus fãs é real. Assim o Porto rendeu-se a Lorde como se a mesma fosse a sua “Queen Bee”. Entre frases lançadas ao público como “I need you to be crazy with me”, e a energia quase inesgotável que fazia com que todos os que por ali andavam, dançassem sem qualquer restrição, Lorde terminou a actuação numa explosão de energia, com o single “Green Light” e um público cada vez mais rendido à artista.

Logo depois, para nós, a noite acabou ao som de Tyler The Creator de volta ao palco Seat. Ali chegados, fomos recebidos por um conjunto de cordas, num tom orquestral, que antecipava a entrada do Flower Boy em palco.

Num cenário projectado de uma floresta sombria, banhada de um céu estrelado, Tyler subiu a palco, fluorescente de cima a baixo, e começou lentamente a ganhar ritmo. Passados dois temas já o palco era do rapper que, rodeado apenas de luz e com os seus parceiros de palco escondidos a um canto, dominou o público com rimas e seus passos de dança. Momentos como quando, sincronizadamente, Tyler e o público do NOS Primavera Sound saltavam em conjunto, não foram poucos, com muita energia a preencher os átomos em volta de quem ali dançava.

Para nós Tyler foi essencial ao fechar da noite e ao que se avizinharia no 2º dia de festival. Mas a hora já escaçava, o cansaço era algum, e por isso  abandonamos a hipótese de dar um passo de dança no palco Bits, para poder viver, em pleno, o resto do festival.

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