Texto: Bruno Figueiredo | Fotografia: Salomé Reis

Num dia em que a escuridão em palco foi marca, Brian Wilson foi luz e Savages energia sem par.

IMG_1457


Chegámos ao recinto restaurados após descanso de um primeiro dia de festival, e deparamo-nos com um dia mais solarengo, mas desta vez a guerra seria com o vento. Do arranque perdemos, infelizmente, White Haus e Cass McCombs, mas podem saber um pouco mais sobre os primeiros em entrevista com o criador do projecto, João Vieira.

À entrada, fomos imediatamente confrontados com a sonoridade indie-rock dos canadianos Destroyer. A música, que embalava os que por aquela altura já lá se encontravam, recebia a atenção de uns quantos que abanavam as cabeças de olhos postos no palco. Outros aproveitavam os tão merecidos raios de sol, deitados pelas colinas sobre as toalhas amarelas, típicas do festival.

Mas falemos da música de Destroyer. Afinal é para isso que se vai a um festival, ouvir música, certo?


Foi então ao som da voz do vocalista Dan Bejar, acompanhada pela sonoridade do trompete e saxofone, que demos início à tarde no recinto. A música, que foi navegando por várias vertentes e géneros, manteve o público colado à experiência que se montava em palco. A certa altura podíamos jurar estar numa praia em Miami, em plenos anos 80 e, logo a seguir, irrompia um tema mais rock, que nos chamava a dançar. Deambulando por temas, ora de tez romântica, ora mais explosivos e enérgicos, Destroyer foram aos poucos conquistando o público perdido pela colina em frente ao Palco Super Bock.

Um caso diferente, no que toca a concentração humana, foi o de Brian Wilson. Faltavam uns minutos para a entrada da lenda em palco e já se perdia conta aos milhares que, em pé, enfrentavam o palco NOS, espectantes de um concerto que seria, para muitos, uma experiência única da qual poucos se poderão gabar de ter tido.


E eis que o tão esperado concerto dá sinal de estar prestes a começar quando, acompanhado pela banda que o segurava que nem muletas humanas, Brian Wilson subiu a palco para, sentado em frente ao seu piano, encher o recinto do NOS Primavera Sound de animação, ao som de “Pet Sounds” – o mítico álbum dos Beach Boys.
Brian poderia ser o avó de quase todos naquele recinto. De ar frágil, tal como se mostrou à entrada de palco, sentado ao seu piano, arrancou o concerto de pulmões bem cheios com: “How loud can the girls shout?”, seguindo-se a mesma pergunta para os rapazes.

Seguiu-se, então, o concerto no ambiente mais perfeito. Pôr do sol a compôr o recinto de tons dourados, cabeças erguidas e olhares repletos de emoção enquanto, no piano, se ouviam os primeiros acordes de “California Girls” ou “I Get Arround”, clássicos por si só – mas temas estes ainda fora do longo repertório de Pet Sounds. A cada tema Brian tomava o microfone para contar histórias de como cada tema nasceu, falando de tempos idos como a altura em que, com 19 anos, escreveu o tema “Surfer Girl”. Foi ao sétimo tema do alinhamento que Brian tomou o microfone para si só e, com “Wouldn’t It Be Nice”, arrancou a viagem mágica por Pet Sounds. Por esta altura já não havia um pé parado no recinto, alguns mais dinâmicos do que outros, num concerto em que, em palco, a média de idades era talvez a maior que por ali passaria por aqueles dias. Ali podíamos ver um septuagenário e o seu conjunto com força de quem veio para mostrar que “velhos são os trapos”, ainda que no público muitos debatessem a fragilidade do cantor britânico.

Temas como “God Only Knows”, “Barbara Ann” ou o, sempre adorado, “Surfin’ USA” compuseram assim uma lista de 17 temas que não deixaram ninguém indiferente, marcando o concerto com, até à data, o maior número de pés a dançar no recinto do NOS Primavera Sound.


Terminado o concerto, um adeus sob ovação ao músico e à sua banda. E, de novo, iniciava-se a migração, que agora se dividia por três palcos dado que o Palco.(ponto) estava já a dar cartas.


O nosso caminho levou-nos então de volta ao Palco Super Bock para recebermos um dos concertos mais memoráveis do festival, Savages. O quarteto britânico que chegou ao NOS Primavera Sound para mostrar a sua música, feita por mulheres de M grande. Arrancando o concerto de guitarra na mão e bateria de arrancão, derramando sobre o público que, entusiasmado, as recebia com gritos e aplausos, música sem rodeios. Jehnny Beth é uma verdadeira mestre do palco, domando o mesmo e o publico à sua vontade. “I Am Here”, “Sad Person” e “City’s Full” foram os três primeiros temas de uma actuação cheia de pontos altos. Ao arrancar do concerto, Jehnny queixava-se de que teria magoado as costas, pedindo ao público que dançasse por sua vez, mas não foi preciso muito tempo para que a mesma descesse ao pé da multidão para partilhar um “palco maior” com os que ali paravam. Regressada ao palco, teve apenas tempo para gritar a plenos pulmões: “We’re gonna play faster and louder”. O som, esse, era negro, com o ressoar da música a sentir-se claramente nos nossos pulmões enquanto, de repente, Jehnny irrompe sobre o público que a levava então a braços, enquanto ela, de joelhos, viajava por cima da multidão que nem rainha carregada pelos seus súbditos em direcção ao trono musical. Lugar merecidamente ganho, não fosse a sua presença, dentro e fora do palco, uma das mais incríveis e energias que já testemunhamos.

Seguimos de volta ao Palco NOS, onde, por entre as sombras, surgia PJ Harvey.


Entrando em palco acompanhada pelo ribombar dos tambores de uma banda, que por aquela altura era banda de marcha e que mais tarde seria banda de acompanhamento. De saxofone na mão, diluída entre os que a acompanhavam, avançou então até ao microfone, finalmente iluminada, onde arrancou o concerto com “Chain of Keys”, terminado o tema ao voltar à formação, novamente nas sombras. De voz suave e aguda, em contraste com as vozes mais graves e masculinas, PJ destacava-se pela força com que entoava as letras ao vento, num concerto de rock orquestrado, onde PJ, como uma rainha das sombras – não fosse o seu look quase céltico de coroa de penas de corvo na cabeça -, bem no centro de palco vociferava canções para os fãs que lá se encontravam.

Depois, seguimos pela primeira vez ao palco Pitchfork, onde estavam a começar os Protomartyr.


O relógio marcava meia-noite, eram os terceiros no palco e um excelente arranque para a madrugada. A entrada em palco foi calma, subindo um a um ao seu lugar, arrancando com um “Hello, we’re Protomartyr from Detroit”, e aí a música irrompeu na tenda maior do NOS Primavera Sound. De espírito punk rock às costas, conquistaram rapidamente o público com uma sonoridade mais pesada, mais dançável. Ainda assim, em palco o vocalista Joe Casey era o contraste dessa energia quando, calmo e estático, cantava agarrado ao tripé de microfone. Ainda assim seguiu concerto noite adentro, arrancando o pés do chão de todos os que se deslocaram à tenda da nova música internacional para se divertir ao som do quarteto rock americano.

Foi então altura da nossa última passagem pelo palco maior do festival, desta vez para o concerto dos, também americanos, Beach House. O concerto começou atrasado, graças aos atrasos no palco irmão com Kiasmos. Foi ao som da batida que a dupla subiu às posições, debaixo da escuridão de um palco despido de iluminação.

De voz rouca, mas suave, Victoria Legrand, arrancou então com “Beyond Love”. Por detrás da voz e bateria, ouvia-se uma sonoridade electrónica que, nesta mistura mágica, encantava o público que os assistia debaixo da escuridão. Escuridão sendo a palavra da noite, com um concerto que transportou a multidão a um outro lugar, de tal modo que até Victoria, depois de alguns temas, lançou ao público a pergunta “Are we still on planet heart?” e, orgulhosos, também anunciando que estavam felizes por tocar no Porto, num festival que lhes deu mais liberdade para tocarem um alinhamento maior.


E assim, a sonoridade mais indie-pop, calma mas intensa, dos Beach House trouxe ao palco NOS um final composto, que deixou um “adeus” relaxado para os mais aficionados e um “até já” para nós que voltaríamos ao recinto, para um último dia de festival.

Fala connosco, dá-nos a tua opinião!