Texto: João Craveiro, Mafalda Lalanda & Bruno Figueiredo | Fotografia: Bruno Figueiredo

Mais um ano e regressamos às margens do Cávado para 4 dias de experimentação musical e re-encontros.

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É verdade que a cena musical em Portugal está cada vez maior. Discotecas portuguesas, como o Lux em Lisboa ou o Gare no Porto, apresentam semanalmente alguns dos maiores nomes da música eletrónica e, ao mesmo tempo, a música rock e pop portuguesa continua a crescer, algo que se reflete nos festivais de verão. Cada vez mais, estes eventos são mais seguros e mais procurados pelo público nacional e internacional.

Um dos nossos festivais favoritos é o Milhões de Festa em Barcelos. Um encontro de amigos que cresceu para ser muito mais, começou há 10 anos, inicialmente no Porto, mas estendeu-se até hoje e integra a rotina de verão dos habitantes de Barcelos, mas não só. Assim, desde então que esta pequena cidade no vale do rio Cávado aceita todos os anos a enchente de pessoas que procura boa música, sol e piscina.

O dia de arranque, de entrada grátis, foi preenchido por sonoridades variadas a arrancar ao som dos Live Low, um projecto com selo Lovers & Lollypops que nos levou a re-visitar o universo da canção popular portuguesa revestido de hipnotizantes sonoridades eléctricas e electrónicas, pontualmente acompanhadas da voz suave da jovem turca Ece Canli. Um concerto que calmamente nos recebeu ao por do sol, embalando os que por ali se deitavam pela colina, bebendo das notas que o quarteto arrancava dos instrumentos.

Seguiram-se então os dizeres, e não cantares, dos Enablers. Mestres na arte do spoken word, encabeçados pelo autor e poeta publicado Pete Simonelli, os californianos deram um concerto que nos pareceu à quem da promessa de uma performance post-punk com uma pitada de rock, mas não deixaram de preencher a tarde com uma presença em palco que serviu para compensar, em parte, a sensação de que deveria haver algo mais.

 

Cigarra & BirdzZie foram a primeira presença em pleno da música electrónica em palco. A dupla luso brasileira trouxe consigo um misto de ritmos quentes, sonoridades típicas e sensações estranhas de que os nossos corpos se alinhavam ao ritmo da batida electrónica que ia sendo debitada em palco, sob o gigante triângulo luminoso do palco Milhões. Mas o primeiro grande momento da noite, e do festival, foi para nós a chegada dos Stone Dead.

O quarteto rock de Alcobaça já tem vindo a dar cartas no panorama nacional, revelando-se uma das melhores apostas no mercado musical Português em 2017, e depois de termos ouvido o disco a performance em palco não ficou, em nada, atrás. A bateria explosiva de Bruno Monteiro, a voz arranhada de João Branco, os riffs de Jonas Gonçalves e a linha de baixo, tão leve quanto pesada, nas mãos de Leonardo Batista, são todos elementos para um combo perfeito de rock no seu estado mais explosivo.

Vale a pena ainda referenciar que nenhum intervalo vivia do silêncio, com o acompanhamento pontual dos Favela Impromptu que se faziam ouvir pela colina a baixo, ainda que presos ao seu pequeno canto de improvisação.

 

Continuando noite a dentro, um dos marcos do festival evidenciava-se cada vez mais: o seu ecletismo no que toca à escolha dos artistas – algo bem visível através dos cabeças de cartaz do primeiro dia. Por um lado, Rizan Said, o auto-proclamado rei dos teclados e colaborador de Omar Souleyman, revelou-se uma figura muito calma, e por vezes até sizuda, em palco. Posicionado atrás dos seus teclados, tocou majestosamente e entregou solos de dabkeh eletrizantes para uma multidão dançante.

Minutos depois, a mesma multidão estava a moshar ao som de metal e de sludge dos Britânicos Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs que, por algum motivo descalços, levantavam os ânimos em palco, e fora dele, dando lugar a uma das experiências mais intensas da noite. Os curadores do festival têm a liberdade de expor os ouvintes aos mais variados estilos de música e sabem que se a qualidade se provar o público vai adorar.

A noite terminou depois ao som dos Dj’s da casa, ouvimos dizer, até porque infelizmente para nós acabou mais cedo, mas com a certeza de que muita coisa boa estaria ainda para vir, festival a dentro.

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