Texto: Marisa Ferreira & Miguel Béco de Almeida | Fotografia: Bruno Figueiredo & Salomé Reis

Dos batuques brasileiros, aos teclados mais rápidos do médio oriente, com passagem por Bristol e South London, o segundo dia do Milhões de Festa trouxe-nos música em todas as linguagens e culturas possíveis.


IMG_0860No segundo dia oficial de Milhões de Festa, a entrada foi dada com um dos casamentos mais felizes na história recente da música portuguesa. Falamos de Filho da Mãe & Ricardo Martins. E se com o calor que se fazia sentir já tínhamos a piscina a encher-se de mergulhos e refrescos, foi também neste segundo dia que voltou à piscina de Barcelos aquilo que lhe pertence: o Riff. Podem ter sido as únicas Big Naturals que vimos à solta pela piscina de Barcelos este ano, mas o duo Bristol, amigo conhecido dos The Heads, bem nos pôs a mexer com a sua bateria e baixo cavalgantes. O riff estava de volta a Barcelos.

Com a promessa de termos sonoridades indie pop a tomar conta de piscina, tivémos os franceses We Are Match – “fofinhos” com os seus sintetizadores e cantigas que ficaram tão bem de fundo na paisagem, composta pela dança com bolas insufláveis e o sol minhoto.

Para fechar o palco mais balado do festival, Adrien Sherwood fez as honras da casa e trouxe ao Milhões de Festa o dub feel good jamaicano. Ele que é um marco no dub e reggaemix, ficou tão bem neste final de tarde e deixou-nos prontos para os concertos que viriam à noite!

A tarde de sábado no Taina, para além de bem regada, foi curada pelos já habituais Riding Pânico. Já que, na realidade, o Milhões não pode acontecer sem eles, porque não deixá-los “tomar conta” dos ânimos por uma tarde? Para além de nos brindar com a sua presença obrigatória, trouxeram ainda os amigos Marvel Lima e Quelle Dead Gazelle. Camisas floridas, crescendos solarengos, ritmos contagiantes com uma boa dose de psicadelismo e rock veraneante só nos aguçaram o apetite para a noite. E não só, porque a taina era rancho!

E se, a acompanhar rancho, tivéssemos pimba? Já se sentem no Minho? Pois é, o Milhões de Festa é realmente um festival que não se prende a géneros. A Rádio Popular, apresentada por Paulo Cunha Martins, trouxe-nos a música popular portuguesa, com a alegria contagiante da rádio. Ritmos latinos, baladas românticas, relatos de futebol, valeu tudo! Obviamente, não faltou quem dançasse nem tão pouco os sorrisos na cara daqueles que decidiram ficar por ali a jantar.

O palco milhões arrancou com um falso alarme de Sun Araw. Problemas técnicos impediram a banda de começar, mas não tardou o seu regresso. Não sabemos se foi esta demora que nos deixou preguiçosos, ou se foi o sol da tarde, ou simplesmente a sonoridade super chill que Sun Araw trouxe mas, este concerto soube bem ver sentado a apreciar os últimos momentos de luz sobre o Cávado. Por entre dub, experimentalismo electrónico, ritmos quebrados e sons percutidos pouco habituais, o americano, que veio acompanhado com banda, cumpriu o inicio de mais uma bela noite de festa.

Com o cair da noite veio Domenique Dumont. E que bem que sabe, ao cair da noite, uma boa dose de electrónica “bonitinha”. A produtora, da qual pouco se sabe, trouxe a sua doce voz francesa e a companhia de uma guitarra estilo Darkside. Beats tropicais que não têm medo da pista e melodias ternurentas deixaram o público do milhões rendido, onde até os metaleiros não resistiram a dar um pézinho de dança.

Se à tarde já tínhamos sido brindados com os Big Naturals, à noite era oficial. Barcelos voltou, pelo menos durante aquela hora, a ser a capital do riff. A banda, já com mais de 20 anos de história e um estatuto de culto no stoner rock, trouxe de volta o groove do baixo, os whammys e as guitarradas psicadélicas infindáveis ao Milhões. Sabíamos que isto era preciso, até porque o rock nunca fez mal a ninguém.

Se tivéssemos de escolher algumas das vozes mais poderosas do festival, certamente que a voz de Gaika estaria entre elas. Juntando a essa sua voz avassaladora – cheia de sintetizadores e auto-tune (mas sem nunca cair no demasiado) – a poesia obscura vinda de South London, a electrónica hipnotizante e uma fortíssima mensagem social, entramos no ritual de Gaika. Um híbrido da poesia social de Kendrick Lamar, com a sordidez de The Weeknd e o poder assombroso de Algiers. Gaika apresentou-se como uma das grandes revelações do Milhões de Festa.

Passando para o outro palco, o afrobeat veio parar a Barcelos no formato dos Bixiga 70. O coletivo brasileiro soube bem como fazer a festa com as suas músicas do mundo descontraídas e aquele que seria o aquecimento perfeito para Islam Chipsy. Com o charme e energia clássicos do Brasil, esteve-se muito bem e pôde aproveitar-se da melhor forma o calor de uma noite de Junho. Com direito a clap along e brindes de vinho rosé, a festa voltou a fazer-se neste palco cheio de boas memórias.

Antes de falarmos do F E S T Ã O que foi Islam Chipsy, vamos fazer um parêntesis breve mas sério. Há uns anos tivémos um advento bonito, que foi a Primavera Árabe. Desde então que, infelizmente, as coisas não têm estado tão bonitas por aqueles lados. Mas, ainda assim, houve e há esperança. E há esperança num médio oriente que quer ser feliz e livre e num ocidente que o aceita e recebe com a mesma felicidade e liberdade. E toda essa esperança e felicidade podia ser encontrada tanto no sorriso cândido de Islam Chispy e dos seus bateristas, como na dança de todos os festivaleiros. Não nos vamos esquecer, também, de que ele já nos era prometido desde o ano passado. E, se esse jejum nos custou, sabemos que compensou. Não tivámos festa o ano passado, mas este ano tivémos a dobrar. Por nós, e por toda a gente no palco Lovers naquela noite, a música ainda não teria acabado e ainda agora lá estaríamos a dançar ao som do teclado virtuoso do músico egípcio. Foi bonito, foi lindo, foi festa. Foi Milhões de Festa!

A festa prolongou-se com Discos Extendes, da label portuguesa de house e techno Extended Records, que conta com nomes como Terzi, Lieben e Smuggla.

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