Texto: João Craveiro & Mafalda Lalanda | Fotografia: Mafalda Lalanda & Lisboa Dance Festival

“Uma visão 360º sobre a música eletrónica” era o mote da segunda edição do Lisboa Dance Festival. De facto, foi isso mesmo que comprovámos com Hip Hop, Batidas, House, Techno e muito mais.

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Ao chegarmos ao LX Factory, encontramos logo a Fábrica XL com as batidas de Jessy Lanza a fazerem-se ouvir no primeiro dia do evento. No entanto, queremos explorar tudo aquilo que este festival tem para nos oferecer e, por isso, procuramos os outros palcos.

Dando uma volta ao quarteirão encontramos o Zoot, onde Moullinex tem preparadas oito horas repletas de músicas e convidados. O mesmo espaço que, no dia seguinte, estaria reservado para Branko e os seus convidados. Além de ter sido uma sala bem composta durante os dois dias do festival, é de notar o divertido jogo de conhecimento musical que havia nesse local. Através do patrocínio da Carlsberg era possível obter duas cervejas gratuitas se os ouvintes adivinhassem três vezes a que música pertencia o artista indicado no ecrã disponibilizado.

Um pouco mais à frente encontramos a Livraria Ler Devagar, um espaço onde a cultura estava presente ao coabitar com a música e os livros. É nestas instalações, mais pequenas e intimistas, que encontramos o palco Antena 3. O tamanho da sala era limitado e o interesse era grande, o que levou a uma fila um pouco demorada para poder assistir aos concertos. No entanto, uma vez lá dentro poderíamos dançar e desfrutar dos concertos de artistas como Lince, Corona e Batida. O calor ecoava no espaço, numa sala cheia e com pouca ventilação.

Continuamos à procura e mais à frente, já perto da entrada do LX Factory, encontramos a Kia Rio Room dedicada às actuações que punham DJs frente a frente – um desafio feito aos artistas, que revelou um set diferente do habitual. Bem vistas as coisas, se calhar até fizemos o percurso ao contrário.

De volta ao palco principal encontramos os resquícios de uma fábrica abandonada, mas que ainda mantinha os pilares de ferro e a estrutura de pedra – memórias de um tempo passado. De longe o maior palco do festival é o local ideal para os concertos que apresentou.

Este é um festival sobre liberdade. Com 20 horas de música em apenas dois dias e espalhadas por 4 palcos houve muito por onde escolher.

Como é impossível estar em todo o lado ao mesmo tempo gostávamos de destacar alguns dos concertos que tivemos a oportunidade e, mais importante, a felicidade de ver.

Tokimonsta

Já conhecíamos bem as produções de Tokimonsta – a primeira mulher a assinar pela editora Brainfeeder de Flying Lotus. Só não sabíamos o que esperar de um dj set da produtora norte-americana.

Dotada de uma boa presença em palco, a DJ misturava música enquanto ia comunicando com a audiência – sempre com um sorriso bem visível no rosto. Apresentou um set bastante eclético, quiçá um pouco demais.

Na primeira hora ouviu-se rap de artistas como Drake e Kendrick Lamar intercalado com faixas trap num set que parecia procurar a sua identidade.

Na passagem para a segunda hora o estilo de Tokimonsta estava mais definido numa vertente mais pop eletrónica com traços de trap e dubstep num carácter um pouco mais comercial do que esperado. Pouco se ouviu das suas próprias produções com destaque à sua colaboração com Anderson .Paak em “Put It Down” que chegou aos nossos ouvidos.

Batida

Batida foi o nome que fechou o primeiro dia do palco Antena 3. No cartaz anunciava-se um Radio DJ Set, algo que nos deixou bastante curioso. Quando chegamos à sala deparamo-nos com um palco repleto de rádios. Pouco depois uma voz, a de Pedro Coquenão, anunciava-nos o início deste espetáculo. Um programa de rádio que estava a ser transmitido para podermos ouvir.

Um concerto sem dúvida interessante, com excelente seleção musical, como já é de esperar de Batida. No entanto, põe-se a questão: até que ponto existir um palco sem nenhuma presença física para a qual olhemos, nos faz querer estar direcionados para lá?Pode ser um turn off para alguns.

Dekmantel SoundSystem

Regressámos ao palco principal a tempo de ouvirmos o início de Dekmantel Soundsystem. Sem um início pronunciado que chamava à atenção do que estava para acontecer, o duo iniciou a sua missão de nos por a dançar durante duas horas.

Entre o Techno e o House e tudo o que engloba podemos escutar uma boa seleção de música, mas que deixou um pouco mais a desejar. Algo que pode estar relacionado à única crítica que temos ao palco principal – o sistema de som.

Enquanto que o som nas filas da frente nos chegava claro, definido, sonante a um volume que apesar de alto não era incomodativo, quando nos afastávamos sentíamos perda de intensidade pouco comum. Quando, por exemplo, apenas se ouvia o kick numa música, era completamente possível ouvir tudo o que se passava à nossa volta sem grande esforço.

Uma pequena nota que não fez com que a nossa passagem pelo festival fosse menos  divertida.

Marcel Dettman

Marcel Dettman foi o escolhido para terminar esta noite. Quando já todos os palcos tinham fechado, a Fábrica XL encheu-se de pessoas que procuravam prolongar a sua noite e até outras que ainda iam chegando para ouvir as duas horas de música que o DJ alemão tinha para oferecer. Residente do Berghain, um dos clubes mais exclusivos do mundo e considerado um lugar cultural pelos tribunais americanos.

O som de Marcel Dettman é caracterizado pelo industrial e pelas batidas pesadas do techno, o que tornou esta antiga fábrica o lugar ideal para o DJ.

A música foi bem recebida pelo público que dançava e se divertia até ao final desta primeira noite do festival.

Mount Kimbie

Iniciámos os concertos do segundo dia com Mount Kimbie. A dupla britânica conhecida pelas suas criações no mundo eletrónico e do post-dubstep fez se acompanhar por mais dois elementos para tocar as suas músicas.

Apresentaram-se num palco repleto de instrumentos para conseguirem reproduzir as suas melodias repletas de ritmo que nos fizeram dançar. Uma viagem por lançamentos passados, em que podemos ouvir “Maybe” e “Made To Stray” em um concerto que certamente alcançou e superou as expectativas.

Corona

De seguida fomos a correr para apanhar um pouco do concerto do Conjunto Corona que, mais uma vez, não desapontou. A sala cheia ouvia as letras e melodias de dB e Logos que se faziam acompanhar de Kron Silva – regular nas aparições ao vivo da banda – e do Corona. A actuação passou pelos vários lançamentos do Conjunto Corona e contou também com a participação de Mike El Nite que subiu ao palco para cantar “Mão no Prato”.

As músicas transportavam-nos para um ambiente psicadélico onde tudo o que podíamos fazer era ouvir e desfrutar. Mais um concerto de sucesso para este grupo que já faz furor no Hip Hop nacional através da sua atitude única perante a música. Uma experiência a repetir sempre que possível.

Hercules and Love Affair

Um dos nomes mais apelativos do festival e que certamente iria chamar multidões -Hercules and Love Affair. O grupo que conta com o DJ Andy Butler, Rouge Mary e Gustaph contava com bastantes fãs na audiência que se viam vestidos a rigor – desde t-shirts da banda a glitter nas barbas.

Um concerto divertido que mostrou novidades inéditas do próximo projecto do grupo, além dos temas antigos.

Hunee

Já há uns tempos que esperavamos ver o DJ holandês Hunee. Um artista conhecido internacionalmente pela sua habilidade atrás da mesa de mistura ao selecionar música. As expectativas estavam elevadas e Hunee cumpriu e ultrapassou tudo o que se podia esperar.

Numa mistura de músicas que passou pelo Disco, House e Techno, o artista levou-nos por uma viagem no mundo da música que fez o público delirar.

Uma fábrica com 3.000 pessoas, todas a dançar, foi a visão que Hunee teve de Lisboa e nós só temos a agradecer. Cinco estrelas para o DJ e uma perfeita seleção por parte da equipa do LDF.

George Fitzgerald

O encerramento do festival ficou a cargo do DJ britânico George Fitzgerald. A fábrica parecia mais cheia do que no dia anterior. O palco, que já estava bastante divertido, acolheu com entusiasmo as seleções do DJ que se focou mais na música House.

Foi sem dúvida um final marcante para mais uma edição deste festival.

Por fim, deixamos algumas notas. Em primeiro lugar, um pequeno à parte para o inesperado cancelamento do concerto de Clap! Clap!. Era, para nós, um dos mais esperados, pois queríamos ver a actuação do artista italiano que acabou de lançar um novo álbum.

Foi uma decepção quando na entrada do Zoot vimos no cartaz, onde devia estar o nome de Clap! Clap!, um autocolante que dizia DJ Satelite. Incrédulos ainda subimos à sala e foi lá, na zona de artistas e press que nos informaram que o músico estava doente e não pôde vir a Portugal.

Algo certamente lamentável e inevitável que não podia ser evitado de qualquer maneira. Mas um festival tão activo nas redes sociais como o LDF tinha o dever de informar as pessoas que se dirigiam ao festival. Até ao momento a única nota de que o artista não podia comparecer foi encontrada no Facebook do próprio Clap! Clap!

Como apesar de tudo o festival não é só música gostaríamos também de salientar o mercado e as talks que decorreram à tarde no segundo dia do festival e também as bancas de comida que nos deliciaram e deram forças quando a noite parecia longa.

O LDF é um festival necessário que vem preencher um vazio deste tipo de eventos. Algo que era sentido, como podemos comprovar pelas 11.000 pessoas pelos palcos do Lisboa Dance Festival. Provavelmente, muitas repetentes do ano anterior, tornando a cidade uma verdadeira capital da música eletrónica.

Um festival muito bem organizado, à parte de uns pequenos blips, que correspondeu às nossas expectativas. Uma terceira edição do festival já está confirmada para 2018 e deste lado esperamos voltar a este que já se tornou um festival importante na cena eletrónica portuguesa e mundial, confirmando tudo isso com a vitória que obtiveram nos Iberian Festival Awards das categorias
Best New Festival e Best Indoor Festival.

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