A história de Bonifaz e as suas aves estragadas é o mote para 3 dias de conversa e música, que terminam em data de revolução.

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Foto por Afonso Bastos ©

O músico portuense que assina o seu novo trabalho com a JACC Records, será parte essencial de um conjunto de 3 datas que tomarão conta do Salão Brazil para falar sobre liberdade, em jeito de comemorações do 25 de Abril. Em antecipação ao evento decidimos falar um pouco com José Valente sobre o seu trabalho e o que o público conimbricence pode esperar desta acção:

Mariana Martins – Vamos então começar pelo princípio. O nome deste de ciclo de conversas mais concerto é homónimo ao seu mais recente trabalho, “Os Pássaros Estão Estragados“. Segundo o que apuramos este nome e o trabalho são influenciados pelo livro “A Boneca de Kokoschka” do escritor Afonso Cruz. Porquê este título? E de onde vem esta inspiração literária?

José Valente – O título é retirado directamente de uma frase do livro do Afonso. Há um diálogo entre duas personagens e há muito tempo atrás, quando eu li o livro, foi um diálogo que me interessou e que achei que tinha um potencial político e, neste caso, também musical muito interessante que eu gostaria de aproveitar. Durante muito tempo tentei várias versões ou várias possibilidades e, infelizmente, nunca consegui chegar a um resultado que me agradasse. Depois surgiu esta oportunidade de gravar um disco, ou surgiu a circunstância perfeita para eu aprofundar um pouco mais aquilo que era uma espécie de um diálogo.

No caso o diálogo acontece quando há um vendedor de pássaros, que é o Bonifaz Vogel, que se apercebe que os pássaros não conseguem cantar e, por isso, estão estragados ou cantam em silêncio e nisto conversa com uma voz, que é uma entidade que comunica com ele durante todo o livro, que descobrimos que é um menino judeu que está a fugir dos nazis. Tem uma conversa com essa voz e diz os “Pássaros estão estragados, ninguém quer comprar pássaros que cantem em silêncio.”, ao que responde a voz “Ninguém consegue cantar no meio destas cinzas todas”, porque isto é em plena segunda guerra e, portanto, a cidade está toda destruída, e o Bonifaz diz “É preciso arranjar uma solução”, a voz responde “Mas o que fazer?”, e Bonifaz remata “Eu sei umas canções. Há que ensinar os pássaros a cantar.”

Portanto, a cronologia que está patente neste diálogo permitia-me também de alguma maneira criar uma narrativa que se relaciona com aquilo que eu considero ser a realidade actual, em que vivemos dentro de um regime obscuro ou que, pelo menos, é mais difícil de identificar isto comparativamente a regimes ditatoriais que tivemos no século XX mas que existe e que é real e que nos submete a novos modelos de opressão, modelos que são promovidos através dos mídia, através de uma constante manipulação de informação, através das redes sociais, etc. Mas no final do dia a pergunta que queria lançar é: até que ponto estamos efectivamente livres? Será que vivemos numa liberdade ilusória? Numa liberdade equivocada? Eu acho que sim. Portanto, este diálogo era perfeito para eu alavancar estas questões de uma forma mais profunda e no final do dia fazer uma peça musical que depois deu num disco, que resultou no disco “Os Pássaros estão estragados”.


MM – O ciclo pretende falar sobre liberdade, dado a sua ligação ao dia 25 de Abril. Vai ainda contar também com a presença de Paulo Mendes e Rui Eduardo Paes. O que é que o traz a si e ao seu trabalho, a esta “discussão”?

JV – Bom, no meu caso eu fiz o disco não com uma intenção, digamos, de revolucionar qualquer coisa mas com uma intenção, para quem ouvir ou para quem quiser ouvir, de pelo menos incentivar a curiosidade ou incentivar a vontade de cantar que é o que eu acho que falta acima de tudo hoje em dia.

Obviamente que este cantar é metafórico, não estou a falar propriamente das pessoas se porem a cantar na rua, se o quiserem fazer estão à vontade, mas onde eu quero chegar é que é necessário, novamente, por parte da população, uma emancipação, ou seja, das pessoas se perguntarem para quê, porquê, porque me tenho de sujeitar a determinada circunstância, perguntarem o que se passa à sua volta e perguntarem também sobre a sua própria felicidade: será que são felizes apesar de oprimidas, eu tenho muitas dúvidas, ou será que conhecem a felicidade de todo.

Uma vez que nos estamos a aproximar do 25 de Abril, uma data fundamental na nossa história e fundamental para a conquista da liberdade e de um conjunto de direitos relacionados com a liberdade, eu acho que é totalmente oportuno juntar pessoas que também reflectem sobre estes assuntos. O Paulo Mendes tem um trabalho longo e muito interessante à volta desta situação, eu não quero dizer que o trabalho dele consiste numa espécie de arte política mas existe política no trabalho dele, e no caso de Rui Eduardo Paes, além de ser um pensador extraordinário, é alguém que conhece muito bem o meu disco porque foi das primeiras pessoas a ouvir e foi das primeiras pessoas com quem falei sobre o que estava a tentar fazer. Portanto, tendo em conta a aproximação da data do 25 de Abril e também daquilo que já expliquei na primeira resposta parece-me totalmente oportuno nós colocarmos em cima da mesa a liberdade.

“Será que existe efectivamente uma liberdade? Ou em que moldes é que esta liberdade está a ser construída? Ou será que está a ser construída?”

Eu acho mesmo que, neste momento, a sociedade ocidental tem que se perguntar até que ponto a sua civilização como nós a conhecemos, não está a ruir, e ainda vamos a tempo de salvaguardar essa civilização ou pelo menos de a manter à tona mas para isso é preciso lutar contra um conjunto de situações, de coisas muito chatas como a mediocridade, a ignorância, a violência, etc. e por aí fora.

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MM – E o que é que podem as pessoas esperar deste conjunto de 3 momentos que irão decorrer entre o 23 e o 25 de Abril?

JV – Para já logo na primeira conversa vão poder ver um filme fantástico que é o “Birdman of Alcatraz” que é um filme muito interessante sobre um prisioneiro que acaba por curar pássaros dentro da sua jaula, é uma história verídica, e torna-se num elemento muito importante para a ciência, pelo menos veterinária, no que diz respeito às aves. O filme mais uma vez concentra-se bastante sobre se calhar uma pergunta permanente na história do homem, ou uma luta permanente na história do homem à volta da liberdade e do seu acesso à mesma. A liberdade está automaticamente interligada com direitos humanos e com um conjunto de outras questões fundamentais.

Nós vamos começar com esse filme, o convidado será o Rui Bebiano, e eu pelo menos da minha parte vou relacionar o filme um pouco com a obra que eu compus para o disco «Os Pássaros Estão Estragados». Vamos apontar vários exemplos de repressão, e se calhar vamos sugerir opções de como as pessoas poderão combater essa mesma repressão.

“Na minha opinião passa tudo pelo conhecimento e pela arte, mas evidentemente que não tenho se calhar as soluções perfeitas, também não sei se as vamos encontrar, mas pelo menos vamos manter essa hipótese.”

No dia seguinte a conversa já será mais concentrada sobre o meu disco e aí iremos partilhar fases do processo: como funcionou todo um processo criativo, como é que aconteceram as colaborações, etc. E isto depois irá combinar com o concerto, ou seja, com a apresentação da obra ao vivo, que é um espectáculo muito interessante porque envolve não só a música mas também uma cenografia própria. Um vídeo que está constantemente a acontecer e que usa imagens ou texto e imagens, que foram cedidos por quatro artistas da cena contemporânea portuguesa, para além do próprio texto do Afonso. Há também uma questão performativa, portanto é um espectáculo multidisciplinar que junta um conjunto de elementos artísticos e que faz com que o espectáculo seja bastante único, não é propriamente apenas um concerto, é algo um pouco mais do que isso.

 

MM – Algo mais a acrescentar?

JV – Sobre o disco talvez seria positivo, e acho que é importante, referir o facto de eu ter recorrido aos dito quatro artistas. Quem contribuiu foi o Paulo Mendes, o Pedro Bandeira, a Marta Bernardes e o António Olaio, os textos são do Afonso Cruz, há uma voz no disco gravada, que é do Ricardo Seiça e a sonoplastia do Pedro Adamastor. Portanto, há um conjunto de pessoas envolvidas, isso para mim é importante. Também o facto de o disco ter gerado esta interligação entre pessoas com perspectivas diferentes mas que, no fundo, todas interessadas no mesmo género de desassossego.

Eu acho que o disco está a ser muito bem recebido, pelo menos por pessoas que eu considero importantes e relevantes dentro da cena musical portuguesa, como é o caso do António Pinho Vargas, ou do Rui Eduardo Paes, do Luís Tinoco ou até internacionalmente o caso do Howard Hersh que é um compositor americano.

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