Os concertos ERRO CRASSO estão perto do seu 1º Aniversário e foi também no dia de aniversário do seu fundador, o António Torres, que nos reunimos à volta da mesa do António, num ambiente muito familiar, para uma conversa entre amigos.

Uns cá, outros lá (na Madeira), juntamo-nos para falar sobre como tudo começou e como é que esta aventura tem corrido.

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Bruno Figueiredo – Como nascem estes dois projectos, o Erro Crasso e o Confooso?

António Torres (RR) – Então olha, o Erro Crasso surge como um site, no início de 2014. Era exclusivamente onde eu ia postando coisas que me interessavam de música, fotografia, “gif-art” e erotismo.

IMG_7866Isto começou para aí no início do ano, e acontece que, em Dezembro desse ano, numa conversa informal com a pessoa que fazia a direcção artística e logística da Casa da Artes, surgiu o convite para programar na Casa das Artes Bissaya Barreto, no sentido de fazer lá aquilo que se viria a chamar os concertos Erro Crasso, de duas em duas semanas ao sábado e ao domingo em regime matiné. Isto também para promover a questão dos pais levarem os miúdos a desfrutar de momentos interessantes, à tarde, ouvirem boa música, num ambiente tranquilo… e então esse convite surgiu para programar na Casa das Artes Bissaya Barreto de Dezembro de 2014 a Março de 2015.

Entretanto aconteceu ali uma reviravolta e há então a necessidade de encontrar uma nova sede para os concertos Erro Crasso.
Eu não conhecia o André nem a Susana do Aqui Base Tango na altura. Fui falar com o André, mostrou-se receptivo logo e ele já conhecia tudo do Erro Crasso e da Confooso, os vídeos, os cartazes, as fotos, … e pronto mostrou-se receptivo. Depois apresentou também o projecto à Susana e então começamos à experiência em Março e tem sido desde de Março até agora. Em Dezembro fazemos um ano e continuamos a fazer isso de duas em duas semanas mais ao menos.

BF – Muito bem, uma aventura pelos vistos. E então como aparece, neste contexto, o Confooso?

João Paiva (CNF) – Pronto então, assim muito rapidamente. Confooso, era para se chamar Borges. Aliás estava tudo definido mas pronto era Borges, mas ficou Confooso.

AT (RR) – Tens de contextualizar porque era para ficar Borges.

JP (CNF) – Isto porque nós comíamos umas bifanas maravilhosas no Borges e foi lá que começamos a discutir o Confooso. Mas pronto, foi lá que começamos a discutir as ideias e um dos nomes em cima da mesa era obviamente Borges ou Leitaria do Castelo, houve muito mas pronto, Borges era obviamente muito forte. Aliás, quando fizermos um rebranding, Borges está sempre em cima da mesa.
Ora, como começou a relação com Erro Crasso? Foi assim: O António, grande jogador de ténis de mesa, e eu, igualmente grande jogador de ténis de mesa. O António foi jogar para o meu clube, o Casa Branca, e conhecemo-nos aí não foi?

AT (RR) – Sim foi.

JP (CNF) – Grande malhas levaste tu! E começamos a falar de música, concertos… Eu na altura tinha partilhado com o António que gostava de gravar concertos e o António falou-me do primeiro site que teve que era o… que já não me lembro do nome.

AT (RR) – Era o vaiumagasosa.com

JP (CNF) – Exactamente. E deu-me logo uma lista de sites incríveis sobre música em Portugal. Depois ficou isso no ar e ao falar com o Alexandre da Casa das Artes, foi convidado por ele para preparares os concertos na Casa e o António falou logo na ideia de gravar os concertos e tal. Eu, a Ana e o Bruno também estávamos com a ideia de fazer outra coisas, ao nível do design gráfico. Algo diferente! Então depois foi tudo ao mesmo tempo. Dissemos logo: “então siga, vamos gravar concertos, fazer cartazes, para o Erro Crasso”.

Ana Camacho (CNF) – Dum projecto anterior que tivemos já tínhamos alguma relação antiga de amizade com o Rui. Depois o Confooso passou para o One Weekend project, o Rui estava associado, juntou-se a nós. Precisávamos alguém para fazer fotografia, achávamos que era ideal. O Miguel era a pessoa perfeita, com uma relação também de amizade e então juntamo-nos todos.

Bruno Rodrigues (CNF) – Tu disseste-me que o Miguel era o único que havia na cidade.

AC (CNF) – Sim, era preciso. E pronto e nós juntamo-nos assim, não foi nada… quer dizer, foi sempre planeado mas juntou-se a fome à vontade de comer e começamos assim o Confooso.

BR (CNF) – Até mais ao nível dos cartazes, lembro-me de, em conversa com o João, estávamos na varanda, e o João diz algo como: “Ah e não sei quê, eu curtia fazer uns vídeos de concertos”, e depois, passados uns dias: “Olha lembraste daquela conversa, conheci um gajo feio que faz concertos” e foi assim que começou.

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BF – E como funciona esta dinâmica de duas equipas? Como trabalham em conjunto? António, tu procuras organizar os concertos, como é que depois comunicam uns com os outros?

AT (RR) – Então, a programação. Eu não sei se já partilhei isto mas eu fiz programação, durante 10 anos, na Sociedade Harmonia Eborense, dado que eu sou de Évora. Depois vim de Évora e estou cá há 6 anos.
Durante o período que estive em Évora a fazer programação, naturalmente, surgem amizades e contactos, bandas, os agentes e essa boa gente toda e então a programação é relativamente fácil de fazer, nesse sentido.

A coisa articula-se com a Confooso de uma forma muito simples. Nós conversamos diariamente e temos o Trello onde nos organizamos, agora menos porque vamos falando sobre as coisas e o ERRO CRASSO recebe actualmente muitas propostas, de muitas bandas. Mas pronto, nós sabemos o que queremos fazer e vamos seguindo a nossa… não é propriamente uma linha, vamos fazendo tudo o que nos dá gozo fazer, tem minimamente qualidade e que sabemos que têm cache aqui no público de Coimbra. Público este que também fomos conhecendo porque… imagina o que é fazer um concerto em Coimbra onde não conheces o público sequer. No início é complicado, não fazes ideia. Eu, em Évora, fazia um concerto e sabia que tinha entre 40 e 62 pessoas e aqui não sei se tenho 10 se tenho 82.

JP (CNF) – António, desculpa interromper, mas nós aí temos a tecnologia a nosso favor. Eu tenho a máquina pronta só que há 2 semanas, esqueci-me completamente de …

AT (RR) – De actualizar o algoritmo não foi?

JP (CNF) –  Sim. Mas nos sabemos sempre, no dia anterior, exactamente quantas pessoas vão ao concerto.

BR (CNF) – Não serve para nada mas pronto.

AT (RR) – Em termos de encomendar as sandes de leitão é sempre mais fácil.
Mas seguindo o que dizia sobre a linha, é que não existe propriamente uma linha. Vamos fazendo coisas que achamos que tem interesse para nós e para as pessoas que querem ver os concertos e a articulação com o Confooso é natural, não há grandes truques. Há uma grande insistência e melguice da minha parte para ter as coisas mais ao menos a horas. É uma forma muito subtil de morder as canelas. E as coisas vão funcionando a tempo e horas, e funcionam bem.

BF – E como funciona tudo a nível de processo criativo?

AC (CNF) –  Normalmente o processo criativo começa quando o António faz o agendamento, até com alguma antecedência. Temos normalmente 2 concertos de antecedência para saber o que temos para fazer.
Entretanto a dinâmica mudou bastante com a minha vinda e do João para a Madeira, tivemos que adaptar, essencialmente, a parte física dos cartazes. Tivemos de fazer uma adaptação e passamos para a realidade virtual…

AT (RR) – Realidade Aumentada.

AC (CNF) –  … a realidade aumentada, que foi a melhor maneira que arranjamos para não deixar cair essa parte.

AT (RR) – Mas é isso. Pode ser encarado, para quem está por fora da história, como uma coisa muito presunçosa: “Ah! Esses gajos são bué High Tech e agora apeteceu-lhe fazer coisas modernas e High-Tech”, não é assim. Foi uma necessidade.

AC (CNF) –  O que aconteceu foi que não queríamos deixar de ter a experiência no mesmo local, quisemos manter isso. Criámos um cartaz que está no mesmo sítio em que costumavam estar os outros, mas anteriormente o que nós fazíamos eram peças únicas, todas feitas à mão.
O processo criativo normalmente começava connosco a reunirmo-nos na sede, ali no coração da Elísio de Moura, uma grande localidade. E era mesmo muito isso, cigarros na varanda e outras coisas. Fazíamos essa parte que era a parte mais criativa e que exigia um bocadinho mais de nós com antecedência. Depois fazíamos compra de material, a instalação, fazíamos tudo, e ainda o colocávamos no sítio.

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Na Casa das Artes tínhamos um lugar definido que era à entrada, tínhamos uma parede certa. Depois quando passamos para o Aqui Base Tango também conseguimos encontrar um sítio especial para manter os cartazes. Depois o vídeo e o áudio são gravados no dia do concerto. De seguida há a pós-produção, que é a afinação do Rui no áudio e o João a fazer parte do vídeo, e há ainda o acompanhamento da fotografia que também é feita no dia, seleccionada pelo Miguel e pronto.
A nossa mudança para a Madeira veio trazer mais um elemento fundamental para o Confooso neste momento, que é a Sandra.

JP (CNF) – Com um contrato milionário.

AC (CNF) –  E dizer que foi a aposta forte quer o grupo fez, conseguiu dar continuidade à parte do vídeo. Todos os outros elementos continuaram a fazer exactamente o que faziam, ou seja, o Bruno continua a fazer a parte gráfica dos cartazes, o Rui a gravar o áudio, a Sandra a substituir o João na parte do vídeo e o Miguel continua a fazer fotografia e eu de alguma maneira, a passar para a parte digital ou seja da realidade aumentada.
A nível de processo escolhemos sempre uma banda sonora para cada trabalho. E depois tínhamos claro umas bandas sonoras que eram mais recorrentes do que outras, normalmente La Femme, e quando a malta estava com bloqueio criativo era Velvet e depois aquilo fluía.

BR (CNF) – Velvet, Lou Reed, Talking Heads, …

JP (CNF) –  A música é muito bonita mas se não houvesse whiskey não haviam cartazes para ninguém.


Alguns exemplos de concertos ERRO CRASSO fotografados pela Cultur’Arte Mag.

BF – Os concertos têm um percurso que se inicia no cartaz, passam pela vivência e terminam num relembrar através das fotografias e vídeo, concordam?

AC (CNF) –  A fotografia, e eu cheguei a essa conclusão, principalmente no concerto dos Olhos Vendados, é essencial porque é um complemento ao vídeo. Como no vídeo foi decidido desde início fazer um único take, ou seja, o vídeo é escolher um plano e documentar o concerto, a banda, os artistas e é aquele enquadramento onde se grava o concerto do princípio ao fim.
Desde o início que nos deparamos com uma restrição, que faz todo o sentido, que é, como normalmente as bandas estão a fazer lançamento dos álbuns e não querem fazer divulgação completa do concerto, porque estão a fazer tour ou a tocar em vários sítios. Então mostramos só um excerto, mas temos o concerto gravado na totalidade.

Mas no Concerto dos Olhos Vendados foi quando decidimos que fazia sentido as pessoas terem a experiência que as pessoas têm no concerto, que era não verem nada, estão com os olhos vendados e a fotografia aí foi muito importante porque complementa, ou seja, mostra as pessoas com os olhos vendados, mostra o outro lado que a câmera não mostra e no resto dos concertos passasse a mesma coisa. A fotografia mostra o público e o vídeo mostra os artistas, a banda… mostra o concerto, o palco.

Eu acho que todas as áreas que nós temos no Confooso são fundamentais e todas se complementam. E quando se fala de um concerto ou de um espectáculo, Confooso é divulgação, comunicação, registo..

BF – Conta uma história de certa maneira. Desde a preparação até ao registo final.

JP (CNF) – Exactamente. Uma coisa que define muito o nosso trabalho é que nós, ao contrário do António e até porque naturalmente o António vê as coisas de uma maneira e nós de outra, “estamo-nos a marimbar” se vão 300 pessoas ao concerto ou 2, se conseguiram ler o cartaz ou não. Não é essa a nossa preocupação e isso dá-nos imensa liberdade ao fazer as coisas, não temos de pensar: “Ah será que vão ler, vão conseguir perceber”, isso não nos preocupa de todo.
AC (CNF) –  Nós não temos restrições criativas.
AT (RR) – Sim isso foi uma coisa desde logo muito clara entre nós, que é a independência do trabalho criativo da Confooso, eles fazem exactamente o que querem e como querem. Nós não temos qualquer voto na matéria.
AC (CNF) – O que é maravilhoso porque todos nós somos profissionais da área e, de alguma maneira, fazemos isto diariamente e temos um cliente. Aqui podemos explorar livremente tudo o que nos apetece e é algo que a maior parte das vezes nos dá gozo. Temos sempre uma deadline para cumprir e nisso às vezes é preciso o António estar a puxar por nós.

Mas eu acho que a parte brutal e essencial do Confooso é isso! A completa liberdade criativa e não é pensar:  “Será que isto é o correcto? Será que devemos fazer assim?”

JP (CNF) – E não temos uma relação comercial. É de amizade e de colaboração.

BR (CNF) – Fala por ti!

AT (RR) – O Bruno é mais paixão, já evolui para outro patamar.

Mas ainda em relação ao ERRO CRASSO e à estrutura do mesmo. Comecei sendo eu, mas depois com a mudança para o Aqui Base Tango a logística era outra, até porque na Casa das Artes já havia um sistema implementado de bilheteira e não só. E no Aqui Base Tango, naturalmente não há esse sistema e as produções passaram a ser um pouquito maiores com coisas como o Milhões de Festa, ou com este warm-up do Black Bass… ou outras coisas grandes. Vá grandes à nossa escala. E então houve necessidade de chamar pessoas, com quem nos damos à muito tempo, que são o Ivan, o Arnaldo e o André Sá.

São uma ajuda imprescindível na bilheteira, na recepção de pessoas, no apresentar o cartaz e a newsletter, todo aquele processo de recepção ao público e essas coisas. E da produção também.

AC (CNF) – Já começa a ser uma máquina Oleada e composta.

AT (RR) – Sim e o Ivan, o Arnaldo e o André têm feito esse papel também. O Ivan só não programou já uma data do princípio ao fim porque está cheio de medo. Basicamente teve medo na primeira oportunidade e não quis assumir.

Ivan Viegas (RR) – É um work in progress! Com calma, com calma.


 

BF – Julgo que já falamos um pouco de tudo, resta-me apenas perguntar: no meio de tanto trabalho o que realmente pode ser um lamentável desastre nesta história.

AT (RR) – Sabes a história do nome ERRO CRASSO?

BF – Não, infelizmente não.

AT (RR) – Eu não sou especialista em história mas em determinada altura, durante parte do Séc. I a.c., o poder em Roma foi assumido de modo tripartido pelo Marcos Crasso e… mais dois, os clássicos. Então chamou-se a esta forma de aliança política “Triunvirato”e foi composto por Júlio César, Pompeu e Marco Crasso, é isso. Ao Marcos Crasso foi dada uma missão que era atacar um povo pequeno, os Partos, aparentemente inofensivo, e ele confiou demasiado na sua superioridade numérica e bélica e não se preocupou em treinar as suas forças nem estratégia. E então foi encurralado num vale… Tipo o filme 300. Então confiou demasiado na suas capacidades bélicas e não preparou as coisas e foi encurralado por um povo muito inferior numericamente,…

A questão aqui é, que acho que é bom/importante, prepararmos as coisas, antecipadamente. Prepararmos, controlarmos, termos as coisas bem estruturadas e pensadas para não acontecerem Erros Crassos e é isso que se tenta fazer.

É por isso que os concertos são preparados com tanta antecedência, que há muita comunicação entre nós e as bandas e há muita transparência, para não termos surpresas.

JP (CNF) – Um Trello, uma Dropbox, um Gmail…

AT (RR) – Muitos telefonemas para cá e para lá, que são transparentes para as pessoas. Muitas conversa de Facebook…
Para nós é muito bom as pessoas chegarem ali a ver um concerto incrível e divertirem-se, beberem copos, e não terem de saber que foram feitos 38 telefonemas e mandados 58 mails, e passarmos horas e horas no Messenger do Facebook a conversar. Para nós isso é que importante!

Chegas ali, vês um concerto incrível, bebes uns copos… isso é que é fixe. As pessoas não precisam de saber os enredos que há por detrás. Isto é que é decisivo para nós, preparação. Preparares as coisas, antecipares problemas. Pronto, o Erro Crasso é isso.

Ivan Viegas (RR) –  E é um nome fixe. Eu cá acho que ele inventou primeiro o nome e depois é que foi procurar um significado.

BF – Bem, acho que não tenho mais nada a perguntar, têm alguma coisa a acrescentar?

BR (CNF) – Ah! Não falamos na… na nossa secretária, a… ela nunca está

AT (RR) – A Sónia!

AC (CNF) – Mas sabes que os melhores administrativos são aqueles que não se vêm, as coisas aparecem feitas e…

AT (RR) – É como os árbitros não é, quando o árbitro não dá cartão é isso, é bom.

BF – Parece que está tudo então. Resta-me dar-te os parabéns António e parabéns ao ERRO CRASSO.

AT (RR) – Obrigado em nome de todos.

Podem saber tudo sobre o ERRO CRASSO e o CONFOOSO nos seguintes links:

http://errocrasso.com/  –  http://confooso.tumblr.com/

Marquem ainda a vossa presença no aniversário, já dia 5 no Aqui Base Tango, com o Filho da Mãe e Ricardo Martins:

facebook.com/events/906044439491128/

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