A adolescência foi, para eles, uma coisa bonita. Mas os conimbricenses mostram que já há muito passaram a fase de tocar na garagem.

Uma rubrica por:
Bruno Figueiredo


A verdade é que não me é estranho o percurso dos Flying Cages, tendo vindo a acompanhar a carreiras destes “putos” – que de putos já nada têm -, e que sempre tive esperança de ver singrar. Hoje posso dizer-vos que os Flying Cages são, sem dúvida, uma das mais fortes promessas do indie rock nacional.

Quando em finais de 2015 me chegou aos ouvidos que editariam não um, mas dois discos no espaço de pouco mais de um ano, não pude esconder o meu interesse. Após uma espera prolongada por uma produção completa do quarteto esta seria, sem dúvida, para mim, a rampa de lançamento do projecto. Em 2016, “Lalochezia” via-se um prolongamento do trabalho até aí feito naquela garagem perdida nas ruas da alta de Coimbra, mas em 2017 este “Woolgather”, fruto de uma produção Pontiaq, marca um novo ponto no caminho da banda.

A voz “de bagaço” do Zé não desapareceu, assim como os falsetes que preenchem as letras no fundo das faixas. Os temas melancólicos mantiveram-se. A sensação de adolescência e o sentido de humor constante ganharam novas camadas sonoras, mas todos estes detalhes da identidade do projecto sentem-se vivos e de boa saúde. Será, ainda assim, impossível negar que essa identidade evoluiu para um novo patamar de produção que realmente faz jus ao trabalho e ao talento dos Flying Cages.

Em temas como o single “Your Friends” ou o mais suave “Can You Tell Me”, as letras, os ritmos e as vozes pronunciam-se com certeza de que aqueles são os quatro miúdos que, juntos, deram início ao projecto em 2011. Por outro lado, em “Selfish Hand”, “Debonair” ou “La Folie”, vemos novas experiências sonoras que complementam perfeitamente o espírito indie rock da banda.

Com teclados e distorções mais psicadélicas, ritmos mais funk e riffs que se extrapolam em múltiplas texturas, os Flying Cages confirmam uma qualidade há muito guardada no som da garagem e das paredes de Coimbra.


Não vos vou dizer que as sonoridades desenhadas pelos conimbricenses sejam uma total novidade; julgo haver espaço para pequenas críticas à percentagem de temas em que se denota claramente a produção e influência da Pontiaq, e àqueles em que sentimos talvez pertencer a “Lalochezia” – sendo talvez este o ponto que pode criar mais desagrado sobre este trabalho. Mas em contraste posso afirmar, com clareza, que a “aventura” que se vive nas 13 faixas de “Woolgather” é a de nos deixar contagiar pelos temas que, mantendo como linha guia o tal supra mencionado espírito adolescente, podemos dançar, gritar, sofrer, sentir, tossir (sim, leram bem) ao lado do quarteto, sempre com aquele abanar de cabeça ou bater de pé que não pode faltar, mesmo quando ouvimos o disco no conforto do nosso sofá.

Em suma, posso deixar-vos um convite aberto a explorar um disco que diverte os mais soturnos, enternece por vezes os mais carrancudos e que liberta energia em doses mais que recomendadas à população em geral.

Flyng Cages – “Woolgather”
★★★★

a3544455444_16

Fala connosco, dá-nos a tua opinião!

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.