Entrevista: Bruno Figueiredo | Fotografia: Salomé Reis

Em véspera de concerto no Coliseu de Lisboa, falamos com Domingos Coimbra sobre tudo o que vai passando com o quinteto lisboeta.

IMG_9343


O quinteto, que diz “ter os dias contados”, já nos deu muitas alegrias em dezenas de palcos nacionais. É difícil para alguém da nossa geração não reconhecer o nome “Capitão Fausto” ou traulitar até, de vez em quando, um “põe o maço na mesa a mão na Teresa e os pés no chão”, mas a herança musical destes senhores não fica por aí. Desde 2010, os Capitão Fausto têm sido uma força a reconhecer no panorama musical nacional, aquando do lançamento de Gazela, o seu disco de estreia. Agora em 2016 e com 3 discos, imensas colaborações e projectos, assim como inúmeros concertos às costas, chegam-nos ao Coliseu de Lisboa num espectáculo de celebração, fechando um ano “de ouro” em festa.

Porque queríamos saber de tudo um pouco sobre os Capitão Fausto e sobre o concerto de dia 22, falamos com o Domingos Coimbra para percebermos o que ficou para trás e o que podemos esperar destes 5 amigos:

Bruno Figueiredo – Vamos começar por um pergunta “difícil”. Quem são os Capitão Fausto em 2016?

Domingos Coimbra – São os mesmos que começaram em 2010. Passaram 6 anos e já fizemos muita coisa, passamos por vários discos mas na essência somos os mesmos que começaram os Capitão Fausto em 2010, não acho que seja uma pergunta assim tão difícil.

BF – Vocês chegaram-nos este ano com “Capitão Fausto Têm os Dias Contados”. Sentem que este vosso título reflecte uma realidade inevitável?

DC – Se formos a pegar no sentido literal da palavra sim! Tudo tem um fim, as pessoas morrem, as bandas acabam mas não foi esse o sentido que pretendemos ao dar este nome ao disco.
O título remete ao fim de uma fase, ao fim da adolescência talvez… Já todos terminamos os nossos cursos, somos mais velhos e agora estamos numa nova fase, em que já não somos exactamente os mesmos “miúdos” que começaram em 2010.
E a verdade é que até nem fomos nós que pensamos no título directamente. Um amigo nosso é que estava em conversa e disse “Os Capitão Fausto Têm os Dias Contados” e nós gostamos de como soou. Depois sentimos que o título se enquadrava bem com as nossas canções e as letras que o Tomás escreveu, a partir daí pareceu-nos a opção mais certa.”

“Tudo tem um fim, as pessoas morrem, as bandas acabam mas não foi esse o sentido que pretendemos ao dar este nome ao disco.”


BF – Este é o vosso 3º LP e com ele tem-se falado bastante em maturidade. Sentem-se mais maduros? Sentes que a vossa música amadureceu?

DC – Sim, de certa maneira sinto que estamos mais maduros, pelo menos no que toca à maneira como trabalhamos – como escrevemos as músicas, como compomos – damos mais atenção ao detalhe e temos mais cuidado com o nosso trabalho. Mas também não sinto que a maturidade queira dizer que o trabalho de uma banda está melhor ou algo do género. Por exemplo, no caso dos Arctic Monkeys, eu não considero os trabalhos mais recentes deles tão bons como os trabalhos que fizeram quando eram mais putos e se divertiam mais, não sinto que seja a maturidade que define a qualidade da música de uma banda.
Agora, claro que sinto que estamos mais maduros no que fazemos.
Para além de que estamos mais velhos, já passamos por muito e aprendemos bastante em 6 anos, e isso faz-nos encarar o nosso trabalho com uma visão mais madura.

BF – E o que ficou para trás neste caminho?

DC – Não sinto que tenha ficado nada para trás, talvez tenham ficado algumas músicas pelo caminho, mas não acho que tenhamos deixado nada de nós para trás. Também não acho que somos uma banda que chegou a um ponto em que encontramos uma fórmula para as nossas músicas e vamos continuar a fazer a mesma coisa, não queremos isso.

“Queremos ter espaço para continuar a aprender e experimentar e podermos fazer mais, por isso nada ficou para trás, apenas vamos deixando em aberto coisas que mais tarde podemos experimentar.”

BF – Em 6 anos de Capitão Fausto já pisaram inúmeros palcos e partilharam uns outros quantos. Como músico, e vocês como banda, com vêm o estado da música em Portugal?

DC – Vejo bem. Gosto muito de ver miúdos com 16, 17 anos a fazer música, e eles fazem canções como nós nunca conseguimos com a idade deles. Gosto muito também, de perceber que têm como referência projectos nacionais, que é algo que antes não era tão comum, talvez por causa da época dos anos 90, inícios de 2000, em que houve menos bandas de destaque nacionais e virámos os olhos para fora.
Sei que há um conjunto de artistas que já foram influenciados por nomes como B Fachada ou podemos ver projecto com Manuel Fúria que tem influências claras dos Heróis do Mar, por exemplo, e algumas bandas até por nós. Não que os tenhamos levado a criar as bandas, nem nada do género, mas são por vezes caras conhecidas dos nossos concertos. Depois vêmo-los com os seus próprios projectos e gostamos de sentir que tivemos influencia nisso.
Depois, ainda sobre a questão de haver uma maior influência de artistas nacionais, isso deixa-nos contentes claro. Sabemos que bandas como PAUS, por exemplo, são bons em Portugal como são bons lá fora e isso deveria ser mais do que suficiente para serem uma referência tão forte como uma banda estrangeira. Para além de que nós também consumimos, cada vez mais, música de vários países e de vários géneros desde o rock, ao pop, electrónica entre outros. E não são também as línguas que nos impedem de gostar da música, até porque notas são notas.

BF – Foi também no seio dos vosso núcleo de amigos que nasceu a Cuca Monga. Como é que isso influenciou a vossa música e o vosso papel no mundo da música?

DC – A Cuca Monga nasceu como uma maneira de nós podermos criar projectos para fazer música fora dos Capitão Fausto, mas agora é muito mais que uma coisa de amigos, com os Ganso e o Luís Severo a entrarem em cena.


Na altura até não esperávamos que os nossos projectos, como os Modernos, tivessem tanto alcance, e sabemos até que há pessoas que gostam mais de Modernos do que Capitão Fausto, pelo que tomou uma dimensão que não estávamos à espera.
Para nós aquilo era uma brincadeira mas agora ,como estamos também para editar em 2017 os discos dos Ganso e de Luís Severo, sentimos a necessidade de ser mais profissionais, e claro que tudo isto nos deu mais prática na produção de concertos ou na edição dos discos, o que nos fez conhecer um pouco melhor esse outro lado da música.

BF – A 22 de Dezembro sobem ao palco do Coliseu de Lisboa, um momento por norma considerado de consagração para um banda. O que esperas do concerto?

DC – Não concordo que seja uma consagração, não estou muito de acordo com essa palavra. Acho que será mais correcto chamar-lhe uma celebração do ano que passou, até porque não sinto que as coisas ainda sejam assim.
Hoje em dia uma banda cresce aos poucos, não é um concerto que faz a carreira de um projecto, é um trabalho contínuo, e nós queremos que seja o nosso trabalho a ter destaque nesse sentido.
Depois a ideia de tocar no Coliseu nem surgiu da nossa parte. Fomos convidados e ainda discutimos sobre se deveríamos aceitar ou não, mas os nossos amigos e família e assim lá nos incentivaram e aceitamos o desafio. Aliás alguns dos nossos familiares, no outro dia, estavam todos contentes por causa do concerto.

“Mas no fundo o concerto vai ser isso mesmo, uma celebração.”

Vamos tocar na integra este último disco e ainda tocar alguns temas desde os nossos primeiro disco. Esperamos que seja uma noite divertida, para nós, para os nossos amigos e todos os que nos apoiam.

BF – Alguma coisa que gostassem de dizer aos vossos amigos e seguidores?

DC – Antes de mais obrigado por nos apoiarem e nos ajudarem durante este 6 anos e apareçam no dia 22, tenho a certeza que vai ser um concerto divertido para todos.

E fica assim o convite feito, para os poucos lugares que ainda sobram num Coliseu já quase esgotado, para o concerto que pretende ser celebração de uma das bandas de maior relevo a nível nacional.

Fala connosco, dá-nos a tua opinião!