Texto: Adelaide Martins | Fotografia: João Duarte

Benjamin Sainte-Clementine voltou a solo português e estreou-se em Coimbra que, desde o primeiro instante, se mostrou rendida.


A passada noite de 3 de Junho foi uma das mais esperadas da programação cultural da cidade, de algum tempo a esta parte. Com uma corrida desenfreada às bilheteiras, o Convento São Francisco encheu para receber Benjamin Clementine.

Com um atraso de quinze minutos a fazer dissipar o mote da “pontualidade britânica”, o levantar da cortina deu-se às 22h15 e o cenário era visualmente perfeito. Benjamin, semi de pé, iluminado por um feixe de luz que circundava o piano, apresentou-se com um olhar fixo na profundeza do mais íntimo ser de cada um; e o aplauso foi instantâneo.

Desde cedo se percebeu que o tímido Benjamin se tinha tornado um fenómeno de culto, ao qual se devia a obrigatoriedade de presença e entusiasmo. Efusivo, impulsivo e, acima de tudo, explosivo: foram estas as principais forças de moção do público. E se, por um lado, mereceu prémio de destaque pela calorosa aclamação ao músico, por outro, mereceu nota menos positiva pelo timing em que o fazia – quebrando, por vezes, o final delicado e melodioso das músicas.

A emoção, essa, foi entregue em boa conta, peso e medida. E, acima de tudo, de peito cheio – e isso sentiu-se por todo o auditório.

Benjamin, por sua vez, mostrou-se viajante num misto de felicidade e timidez, fazendo amolecer ainda mais o coração dos presentes com a sua ternura. Dono de um sentido de humor digno das clássicas séries de BritCom, Benjamin interagiu com a plateia de uma forma mais fluida e descontraída à medida que o concerto avançava, conforme lhe iam chegando gritos e mais gritos de carinho e dedicação.

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Do alinhamento da noite, fizeram parte temas como “Winston Churchill’s Boy”, “Adios”, “The People and I” e “St-Clementine-On-Tea-And-Croissant”, mas foi com “London”, “Cornerstone”, “Condolence” e “I Won’t Complain” que Benjamin conquistou mais apupos.

Acompanhado por bateria, contrabaixo, violoncelo, viola d’arco e violinos, o músico de apenas 27 anos proporcionou um espectáculo transcendente. Dono de um timbre de soberba profundidade e um alcance vocal ainda maior, Benjamin percorreu hipnotizantes jogos de palavras adornadas por um piano viajante na ponta dos seus dedos esguios. A secção de cordas, lá atrás, conferiu-lhe profundidade temporal, fazendo qualquer alma mais desatenta vaguear no imaginário. De repente, o auditório podia ser qualquer outro espaço, em qualquer outro tempo. A bateria foi a dona do ritmo, rica em nuances que a jazz faziam lembrar; tudo isto conjungado numa massa sonora de aquecer o coração e o espírito.

Depois de dois encores, Benjamin Clementine despediu-se de Coimbra com um sorriso rasgado e um agradecimento de mãos junto ao peito, debaixo de um aplauso esmagador.

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