O Salão Brazil celebrou, em 2015, 3 anos sob a gerência do JACC e decidimos conhecer a história por detrás da sala de espetáculos que fez mexer a baixa coimbrã.

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Celebrava-se, por aqueles dias, o terceiro aniversário do Salão Brazil sob a alçada do Jazz ao Centro Clube e a Cultur’Arte Mag decidiu falar com José Miguel Pereira, presidente do Jazz ao Centro Clube e responsável pela sala, um pouco sobre estes três anos de música, e não só, que pisaram o palco do Salão Brazil.


 

Adelaide Martins – Para aquelas pessoas que não conheçam, explica-nos o que é o JACC – Jazz ao Centro Clube e o Salão Brazil.

José Miguel Pereira – O JACC é uma associação cultural sem fins lucrativos que nasceu em 2003 e cujo objectivo é promover e divulgar a cultura musical. Naturalmente, e no momento em que nasceu, deu e continua a dar-se uma especial relevância ao jazz e às músicas improvisadas. Desde 2003, no momento em que nasceu a associação, até ao momento presente, o JACC tem-se dedicado a uma série de projectos, entre os quais a revista Jazz.pt, a editora JACC Records e uma enorme variedade de produções de festivais, de produção e programação de festivais como o XJazz – Ciclo de Jazz das Aldeias de Xisto, o Ciclo de Jazz da Amadora ou os Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra onde, de resto, nasce o Jazz ao Centro enquanto associação. E todos estes projectos fizeram, naturalmente, uma associação que tem um âmbito e actividade nacional mas que nos últimos três anos tem centrado toda a sua actividade em Coimbra, porque finalmente tem uma sede que gere o programa e onde pode desenvolver uma série de projectos que antes não poderia.

Por sua vez, o Salão Brazil é um espaço que acolhe toda a estrutura associativa e que, além disso, permite desenvolver as actividades, tanto de criação como da programação a que o Jazz ao Centro se dedica.

 

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AM – Quais são as maiores dificuldades e as maiores vitórias, digamos assim, em todo o trabalho que envolve uma associação destas?
JMP – O próprio Salão Brazil é uma conquista, e basta notar qual é o cenário nacional de espaços de apresentação de música ao vivo para perceber que nem todas as capitais de distrito, por exemplo, têm um espaço como este, com esta dimensão.

Agora, e naturalmente, é óbvio que nem todas as bandas, principalmente numa fase inicial, podem passar pelos grandes auditórios ou cineteatros e, portanto, era necessário haver uma rede de espaços de média dimensão como o Salão Brazil. E era importante existir na cidade de Coimbra um espaço que permite a passagem de uma série de nomes tanto inocentes como perfeitamente consolidados da música, razão pela qual o Salão é uma conquista. O que não quer dizer que a música passe somente pelo Salão Brazil! Há outros agentes a fazê-lo – muito bem -, mas, sem dúvida, que há uma diferença enorme entre ter ou não ter um espaço como o Salão Brazil.

 


 

AM – Se for possível, uma vez que é bastante complicado, peço-te um pequeno resumo destes três últimos anos e, também, uma pequena listagem daquelas que são as memórias mais presentes.

“O trabalho é um trabalho de continuidade.”
José Miguel Pereira

 

JMP – O trabalho é um trabalho de continuidade, ou seja: por esta altura encontramo-nos já a pensar no que vamos fazer em 2016 e é muito difícil compartimentar o trabalho desde que abrimos o Salão (em Outubro de 2012), compartimentar o trabalho neste período e ou destacar momentos mais importantes. O que é certo é que, em termos gerais, o Salão conseguiu afirmar-se em três linhas. Como um espaço de programação que promove a música portuguesa – e basta passar em revista a programação dos últimos anos para perceber e contabilizar o número de bandas que por aqui passaram, independentemente de serem mais ou menos conhecidas. Mas eram bandas que estavam a trabalhar e o único critério que nós elegemos não tinha a ver com o género musical, tinha a ver apenas com o encontrar de bandas que estavam a rodar com trabalhos ou a apresentar novos trabalhos ou que estavam a desenvolver um trabalho de pesquisa interessante e que nós achávamos que devia ser visto pelo grande público. Portanto, eu diria que ao longo destes três anos é transversal o apoio à música portuguesa.

IMG_1323Acho que cada vez mais há o reconhecimento da qualidade da “cena” portuguesa e nós acabámos por vir no momento certo. No momento em que, felizmente, há esse reconhecimento da importância de dar espaço à música portuguesa e, portanto, viemos reforçar esse trabalho de promoção. Por outro lado, é um espaço importante para a passagem e integração de Coimbra numa rede informal, mas qualificada, de nomes internacionais. Uma vez mais, basta analisarmos a programação nos últimos meses para perceber que passaram por aqui – talvez só em Setembro e Outubro – sete ou oito nomes internacionais importantes dentro
daquilo que é a dimensão e a escala da casa, daquilo que ela pode acolher. E, portanto, este é o segundo eixo, não é? Assim uma espécie de balanço de como as coisas têm corrido aqui no Salão, também é um eixo de programação, não é? Primeiro, apoiar a música portuguesa; segundo, a inserção no circuito internacional; e, por último; tem a ver com serviço educativo. O Salão acolhe o Serviço Educativo do JACC e, é também através de um apoio específico como as residências artística, um espaço que acolhe a criação e a experimentação artística. E isso é muito importante. Foram gravados aqui ao longo dos últimos anos vários discos e vão continuar a sê-lo. Ainda neste Setembro foi gravado um, em Outubro outro; tudo iniciativas que partem do clube do Jazz ao Centro e é óbvio que o Salão é fundamental nessa lógica. Portanto eu diria que estes três eixos, que são três eixos de programação, são três eixos orientadores. No fundo, os destaques são conseguir-se fazer o trabalho a que nos propomos. Além disso, é óbvio que houve momentos especiais mas a ideia é tornar esses momentos especiais cada vez mais frequentes, fazer com que as noites sejam boas… Porque nós nunca sabemos, há semanas e há grupos que apesar de serem de uma qualidade enorme não conseguem atrair público que nós gostaríamos.

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O ano 2015 demonstrou – apesar de uma certa sazonalidade, que tem a ver com factores normais que vivemos numa cidade como Coimbra, uma cidade universitária – que aumentámos o número de público, ou seja, o número global de público aumentou, portanto também aqui o balanço é positivo. A cada ano notamos que a casa consegue ganhar público e são públicos muito distintos.

 

AM – E depois de toda essa construção de público e o aumento de pessoas nos concertos, existe também uma espécie de fidelidade de algumas pessoas para com os espectáculos do Salão. Vemos sempre algumas caras que independentemente do espectáculo, num dia mais que outro, vêm. Há uma fidelidade de público, é também essa uma das maiores gratificações?

JMP – Sim, certamente. O facto de sentirmos que há pessoas que vêm regularmente e que são os principais defensores do Salão e, como tal, funcionam em muitos dos casos como embaixadores do Salão. E não só no campo do público! Não sei se isto acontece em todo o lado, mas nós ouvimos muitas vezes, por parte dos músicos, “Isto é brutal! Vocês recebem-nos muito bem e as condições são muito boas!”, apesar de ser uma casa muito humilde. Mas eu acho que isso se nota na maneira como se recebe e o entusiasmo que nós colocamos nas coisas, portanto acho que o público que gosta de música e que segue o fenómeno musical também repara nisso, embora muitas das pessoas que gostavam de vir mais vezes se calhar não podem também por factores financeiros… O que é normal. Há muitos concertos por mês, uma média de doze, às vezes quinze concertos por mês e portanto é natural que as pessoas não possam vir a todos como quereriam, mas algumas pessoas referem-nos isso mesmo, “Se pudesse estava cá quase todos os dias!”. Para mim, e para a instituição, isso é sinal de que as pessoas precisam de música e que são seguidores do fenómeno musical independentemente do género.

E, por outro lado, é também uma enorme satisfação recebermos propostas em que os músicos referem “Tivémos aí os nossos amigos X ou Y e disseram-nos que foram muito bem recebidos e que o espaço é muito fixe!” e, portanto, querem tocar neste local e isso é muito bom.

AM – Sim. Eu própria já ouvi vários músicos referirem-se a um “voltar a casa”…

JMP – Sem dúvida. Isso é estupendo.

AM – Retomando o que falávamos anteriormente: estavas a falar dos preparativos para o ano de 2016… Quais são as próximas planificações?

JMP – Sim, a tal lógica tripartida não vai mudar. Na programação, a música portuguesa continua a ter um lugar particular, a criação através de residências artísticas continua a ter um lugar importante e vamos tentar naturalmente, por outro lado, também trabalhar com produtores que queiram apresentar trabalho no Salão e com artistas internacionais. Portanto, nisso, não há nenhuma alteração. No fundo, o que estamos a tentar é receber cada vez mais espectáculos de melhor qualidade dentro daquilo que é a escala da casa, daquilo que o Salão permite. Portanto, o que veremos cada vez mais é a existência de residências artísticas em que os artistas fazem trabalho que alimenta o Serviço Educativo e fazem trabalho que alimenta a nossa intervenção na comunidade, no espaço envolvente. Ou seja, cada vez mais tentar ligar vários aspectos que às vezes estavam um pouco desconexos mas que em 2016 vão-se tornar muito mais óbvios, tanto no caso das residências artísticas como no caso do Serviço Educativo.

AM – Para acabar e um bocadinho na zona cliché do assunto, como é que vês – enquanto responsável pelo projecto – o panorama geral da cidade e do país, culturalmente falando? Tendo em conta, claro, todas as possíveis falhas e cortes ao apoio da cultura.

JMP – Há que distinguir esses dois aspectos, porque muitas das vezes nós não conseguimos traçar uma correlação entre a qualidade da produção artística e a quantidade de apoios existentes para a sua criação.

 

No fundo, o que eu acho que é transversal a todas as estruturas culturais e a todos os criadores é uma falta de apoio e uma falta de apoio que põe em causa a qualidade do seu trabalho…”
José Miguel Pereira

 

No fundo, o que eu acho que é transversal a todas as estruturas culturais e a todos os criadores é uma falta de apoio e uma falta de apoio que põe em causa a qualidade do seu trabalho, do output do trabalho artístico e que também coloca em causa, obviamente, a possibilidade dos espectadores, das audiências, do público ter acesso a determinadas obras. Há sectores onde um novo criador nem sequer pode entrar e começar a apresentar trabalho. A música é bastante diferente do teatro ou da dança num determinado aspecto porque a estrutura necessária para iniciar um projecto musical distingue-se em muito da estrutura que é necessária para iniciar e construir e apresentar um projecto teatral, por exemplo.

Uma estrutura no teatro é muito mais ampla, exige outro tipo de meios… E apesar disso a música também precisa de apoios, nomeadamente quando estamos a falar de áreas ligadas à experimentação ou coisas que o mercado não consegue por si só absorver e não quer absorver, não tem interesse nenhum… Portanto, o que acontece é que nas estruturas culturais, e nós falamos com os nossos parceiros – e alguns deles são estruturas com quem temos uma relação muito próxima – e a situação é caótica, ou seja, a falta de meios coloca em causa o funcionamento normal dessas organizações. Em termos da qualidade artística que temos vindo a ver no campo musical, há uma enorme melhoria da qualidade dos projectos quer estejamos a falar da música pop/rock portuguesa quer estejamos a falar de projectos relacionados com jazz ou com música improvisada, com músicas experimentais. Há um aumento de pessoas a dedicarem-se a elas, é óbvio que também isso tem a ver, por exemplo, no campo do jazz, com o facto de haver uma melhor formação de músicos, que vão para universidades e depois têm acesso a uma educação que lhes permite naturalmente ter uma outra eficiência técnica, no fundo, terem uma melhor formação. E no campo, por exemplo, das musicas mais populares, o facto de hoje ser muito mais fácil gravar e fazer a música chegar ao público de forma mais simples do ponto de vista técnico, não quer dizer que depois as audiências estejam a aumentar ou que todos os projectos possam ganhar a sua audiência. Portanto há estes aspectos, sobretudo o que é preocupante é que são conhecidos relatórios tanto ao nível da União Europeia como da OCDE em relação à importância que o sector cultural entendido como um todo, ou seja, que a cultura e as práticas artísticas são acompanhadas por uma série de outras actividades económicas que têm um enorme peso no produto interno dos países e que em Portugal não se valoriza efectivamente essa criação de riqueza nem de emprego, portanto não se valoriza, não se apoia. Além, claro, deste aspecto económico, que se deve ter em conta. Porque no fundo quando se fala em crise e na situação geral do país isto devia ser levado em conta, um investimento que depois tivesse retorno.

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No caso de Portugal, é muito mais preocupante porque além da crise financeira junta-se um outro fenómeno que é o facto de Portugal estar na periferia da União Europeia e, portanto, a cultura é extremamente importante e a cultura aqui vista enquanto língua, enquanto produção artística de obras discográficas ou de outro tipo de objectos artísticos, determina a identidade e o futuro de um povo e estas duas dimensões são extremamente importantes e eu diria que a questão identitária é, se calhar, mais importante até do que a questão económica ou financeira. Em relação ao futuro que o país pode ter, é esta a realidade que temos.

2 thoughts on “A sala que mudou a música em Coimbra

  1. Que mal se escreve em Portugal!
    Diz o artigo que “O Salão Brazil celebrou, em 2015, 3 anos SOBRE a gerência do JACC”. Toda a gente tem obrigação de escrever bem, mas essa obrigação é claramente mais forte numa publicação que pretende ser de cultura.

    1. Boa tarde Carlos.
      Tem toda a razão no que diz e pedimos desde já desculpa. Apesar de procurarmos ter um trabalho de maior qualidade relembro-lhe que esta equipa é composta por voluntários, sendo que nem todos os nosso membros são profissionais e que por vezes alguns erros passam despercebidos.
      Como pode ver que já corrigimos o erro e agradecemos pelo aviso.

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