Numa expressão que privilegia o trabalho do corpo sobre a voz, o colectivo CITAC afirma-se tal como é, perturbador, inquietante, questionador, com a peça “Isto não é para gente feliz”.

Uma rubrica por:
Alexandre Valinho Gigas


Pego no carro para uma viagem de 100 Km. Acabei de assistir à estreia da peça “Isto não é para gente feliz” do CITAC, em cena até dia 2 de Junho próximo no Teatro estúdio do edifício da AAC. Há algo de pessoal na minha abordagem sobre o que vi e que me vai acompanhar na viagem; sobrevivo com essa sinceridade para comigo próprio. A minha filha dorme no banco ao lado e eu sou o homem mais solitário de que me lembro ser.

O efeito cénico inicial é despido e sincero, puro, com as luzes a marcarem presença e não a reforçarem a cena. Já o som não, é absoluto em todas as suas molduras, dissolve-se na cena como algas que dançam na água. Nesse cenário onde o próprio edifício reverbera a sua alma, o grupo encena os colectivos; as tragédias, comédias e catástrofes que pautam o nosso ser social. Numa expressão que privilegia o trabalho do corpo sobre a voz, o colectivo CITAC afirma-se tal como é, perturbador, inquietante, questionador. Os actores movem-se sobretudo em conjunto, de forma coordenada e harmónica, até quando é dissonante, para ensaiar a solidão dos heróis.

Isto não é para gente feliz Tom Barreto
Tom Barreto ©

Mas eu conheço alguns dos actores. Percebo que todos estão de alma nua e sincera e que o Nuno Preto, mais que dirigiu, orquestrou aquelas individualidades num exercício puro, sincero e muito bonito, sobretudo inquietante. A minha âncora de cena é um trompete. Encontro outras pontuais porque esta peça é múltipla – estão sempre 16 pessoas no palco – e espelha de forma exímia o ridículo; o nosso e o dos outros, numa ininterrupta coreografia povoada de ruído, rumo a um silêncio que não o é. O perpetuum mobile que é o que é, quase niilista, por certo não optimista.

A minha filha não gostou. Até ao carro apenas falou na sua liberdade em não agir de acordo com a maioria só para a ela pertencer. Hoje contou aos familiares, ao pormenor, o que não gostou naquilo a que assistiu. Ficou com a sua marca. Mea Culpa. Vivo bem com o meu ridículo, mas trago questões individuais sérias sobre o colectivo a latejarem no meu cérebro, na minha vontade, na minha força para amanhã. Mergulho nelas para submergir do ruído num silêncio catártico. O silêncio foi muito bem conseguido na peça também. É a meu ver de onde emerge a Resistência, que a Dúvida gera no seu ventre, que pauta esta peça do CITAC, onde a instituição se reverbera em elipse.

São ainda e sempre tempos de Resistência. Afinal duvidar é resistir e curso do CITAC que aqui termina promete ensaiar colectivos contra os tempos adversos que se avizinham, atendendo ao corte nos canais de financiamento. Preocupo-me. Integro esse colectivo. Para já, concluo que A Casa são os Amigos e que O Herói é um lugar solitário.

Da peça em si, relembro as palavras de Wislava Szimborska quando chego a casa, porque não vou dormir bem:

“Porém, o mais sublime é o cair do pano
e o que se avista através da fresta minguante.
Aqui, uma mão apressa-se para chegar às flores,
acolá, uma outra apanha a espada caída.
Por fim, uma terceira mão invisível
cumpre o seu dever,
aperta-me a garganta.“

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