A sua carreira cresceu, lado a lado, com alguns dos grandes nomes da nova música portuguesa e, com um estilo de realização já bastante marcado, Vasco Mendes revela-se uma das maiores promessas da realização em Portugal. Trabalhando, essencialmente, em videoclipes musicais e documentários, Vasco vai contando histórias das suas pequenas personagens, por entre vários locais do mundo, acompanhando as mesmas com um conjunto de imagens com um teor de fantasia.

Desde astronautas a samurais, cowboys ou uma simples rapariga, nas mãos de Vasco nascem mundos fantásticos, acompanhados pelo melhor da música portuguesa.
Estivemos à conversa com o Vasco na Casazul, em Barcelos, para saber um pouco mais do seu trabalho.


Bruno Figueiredo – Vasco, és um realizador muito proeminente em Portugal, na área dos videoclipes e da música. Como é que entraste neste mundo da realização e, consequentemente, da música?

Vasco Mendes – Muito antes de me envolver com a música, já tinha um gostinho por filmar. Fazer pequenos filmes com a família ou com os amigos e fazer umas brincadeiras de Natal. Fazer vídeos de Natal acaba por ser o início, não é? E, depois surgiu a questão de eu gostar de filmar música. E, assim, acabei por começar a filmar concertos.

O primeiro episódio foi mesmo quando eu roubei a câmara do meu avô, para filmar um concerto de música. Acho que isso foi um momento importante.

Depois comecei a filmar concertos e, desde então, a minha relação com música começou a evoluir. Passar de filmar concertos e editá-los, para filmar videoclips, foi um passo muito pequeno. Está tudo conectado, portanto a partir dos primeiros videoclipes comecei a sentir que era uma área em que me podia exprimir, experimentar coisas visualmente… ideias, pequenas histórias, conceitos…

E o videoclipe é uma coisa que… não sei…
acho que esta frase não tem fim.

O videoclipe é uma coisa muito mais imediata: eu tenho a ideia; há a música; e posso concretizar essa ideia e, no entretanto, não é tão complicado como na ficção. Com o videoclipe consigo fazer e concretizar ideias mais rapidamente.


BF – E, assim de repente, qual foi o videoclipe que mais gostaste de realizar?

VM – Bem, isso é complicado porque cada um tem assim uma história. É claro que há bandas com quem eu trabalho mais. Já trabalhei três vezes com White Haus, duas com Capicua, duas com Weatherman e mais duas com Glockenwise… portanto, há bandas, com quem acabamos por criar alguma sintonia e, quando as coisas resultam, acaba por se repetir a dose.

BF – No que toca a inspiração, tens um estilo pouco comum no que toca a realizadores portugueses. Há videoclipes, como os dos Glockenwise ou White Haus, que gravaste em Hong Kong, onde isso é mais notório. Onde vais buscar esses teus conceitos?

VM – Sempre que eu faço uma viagem, vejo a potencialidade que essa viagem me pode trazer em termos visuais. E, neste caso, tanto a música de White Haus se adaptava àquele ambiente como, no caso dos Glockenwise, eu achava que lá encontraria uma história para, visualmente, descrever a música. Por exemplo, eu gosto de ir à cidade de Berlim e gostava de filmar em Berlim. Então, automaticamente, quase que crio um conceito para filmar em Berlim, como no caso daquele vídeo de White Haus, o “No Mistakes”. Portanto, vendo esse caso, a cidade deu-me o que eu queria. Depois, o resto, são pequenas histórias ou personagens que eu gosto, seja um astronauta, um cowboy, o mestre de Kung Fu, uma simples rapariga… pequenas personagens, personagens-tipo, talvez.


BF – Achas que dás uso à música dessas bandas para contar a história dessas tuas pequenas personagens?

VM – Sim, porque a música pode ser um escape. Imagina que nesta música consigo… por exemplo, “No Mistakes”: Eu passo muito tempo ao computador. Porque é que a personagem do “No Mistakes” não está ao computador e tem medo de errar? É do género: agora estou em Hong Kong, perdido, e é tudo é novo aqui. Então vou filmar tudo à minha volta.
Acho que há coisas que são mesmo pessoais; figuras que, quando era miúdo, apreciava e que agora volto a pegar nelas. Vai-se buscar sempre alguma coisa à infância, à adolescência e ao que somos agora. E, depois, surge uma mistura de tudo isso.

BF – E projectos para o futuro? Vês-te, num futuro próximo, a trabalhar na música ou tens projectos para “fugir” para outras vertentes da realização?

VM – O videoclipe está a ser bom para eu testar mil coisas. Agora, eu sei que há sempre aquela janela que me pode levar para curtas ou para documentários. A área da imagem é muito vasta.

Eu não digo que não, a fazer uma curta metragem daqui a dois anos, uma longa metragem daqui a cinco, mas acho que é uma coisa que, naturalmente, vai surgir e às vezes vejo casos de realizadores que começaram nos videoclipes também e, agora, estão a fazer ficção. Portanto, se calhar é um dos vários caminhos. Eu escolhi este. É um sítio onde me sinto confortável e onde posso mostrar trabalho.

Se estivesse só focado em fazer curtas metragens, se calhar só tinha feito duas em três anos. Assim, em três anos, já fiz, salvo erro, 15 videoclipes e posso mostrar muito mais trabalho, agora, nesta fase inicial a fazê-los do que a pensar em fazer curtas metragens.


Até porque, se calhar, eu preciso de ideias mais complexas ou uma ideia maior para fazer uma curta. Enquanto isso, posso experimentar ideias com videoclipes, pequenas histórias, nada de grande compromisso. Depois, os filmes hão-de vir com o tempo. Não estou preocupado.

BF – Por último, o que achas que o teu trabalho transmite aos outros?

VM – Eu sempre me habituei à simplicidade do método, aos termos práticos da coisa. Vamos ver: se calhar, para um vídeo preciso de um tripé, duas luzes e uma personagem… Vamos reunir um grupo de amigos, familiares… e há muita coisa que se pode fazer com uma câmara, um tripé, luzes, amigos e pessoas disponíveis a ajudar.

Isso tem sido a minha motivação. Pensar “Com isto, o que é que nós conseguimos fazer? Com isso, o que é que conseguimos esconder?”. Eu quero que as pessoas vejam o meu vídeo e não adivinhem que aquilo foi filmado “só com isto ou só com isto”. Tentar que, com poucas coisas, pareça que foi feito com muitas.

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Os primeiros vídeos que eu fiz foram por iniciativa própria e foram esses que “chamaram” o tipo de vídeos que eu queria fazer. Como estava mais relacionado com o mundo da música, os primeiros vídeos foram, inevitavelmente, relacionados com música.

As pessoas acabam por me descobrir por aí, através dos trabalho que tinha feito por espontânea vontade. Às vezes, temos de ser nós a mostrar às pessoas o caminho para o que queremos fazer. Foi por isso que os meus primeiros vídeos foram relacionados com a música, de concertos, com o ambiente de que eu gosto. E foi, a partir daí, dos concertos e de filmar, que vieram os videoclips. E, desde então, tem sido tudo seguido.