Hoje, os seus personagens ganham vida como ilustrações que nos contam as suas pequenas histórias, no papel ou em pequenas figuras tridimensionais, que difundem a barreira entre a ilustração com a realidade.

Foi em Junho de 2015, aquando do arranque da sua exposição “Êxtase da Inquietação” que esteve pelo Museu Municipal de Coimbra entre os meses de Junho e Agosto, que nos juntamos ao Ricardo numa conversa informal onde falamos um pouco de onde nasceu a inspiração para as suas histórias e personagens ilustradas.


Adelaide Martins – Explica-nos um pouco o teu trajecto de vida para aquelas pessoas que não te conhecem nem nunca ouviram falar do teu trabalho.

Ricardo Ladeira Carvalho – Então eu nasci no Porto, em 1992 e mudei-me para Coimbra muito cedo, uma das coisas que eu sempre gostei muito de fazer era desenhar. Desenhar, desenhar, desenhar… e como sou filho único brincava muito ao “faz de conta” e criava muitas histórias e imaginava muitas brincadeiras.

“Brincava sozinho e depois sentia necessidade de passar essas histórias, essas imagens, para o papel e então desenhava sempre as personagens que eu criava, os mundos, tentava sempre fazer essa transição para o papel.”

Entretanto meteu-se o futebol e eu desliguei-me um bocado das artes e dos desenhos. Depois no 9º ano quando eu tive de escolher um curso para seguir no secundário. Estava indeciso entre desporto e artes e acabei por seguir artes para fugir da matemática. Foi a melhor coisa que eu já fiz na vida porque agora não me imagino a fazer outra coisa!

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Foi então que o gosto voltou! Depois decidi continuar em Coimbra, até porque tinha criado um espaço para trabalhar em minha casa, e segui o curso de Arte e Design, em Coimbra, por ter a parte de arte que era algo que eu já sabia que queria fazer, e ilustração, mas também parte de design para conhecer e poder trabalhar noutras áreas e experimentar outras coisas. Entretanto já consegui trabalhar com algumas entidades como o Licor Beirão, Nósnalinha – Editora de ilustração, a Casa Pia e no final do curso consegui estagiar no Museu Municipal de Coimbra. Foi então que me convidaram a expor no Museu.

Passei então este último ano a trabalhar. Todas as peças são originais, coisas novas e penso que isto funciona como uma rampa de lançamento.

AM – Depois de “tentares fugir à matemática” quando é que te apercebeste de que sentias ‘não é mesmo isto que eu quero fazer’ mais a sério?

RLC – Eu acho que, inconscientemente, a arte e o gosto de desenhar nunca saiu de mim, porque eu vejo agora os meus cadernos do 7º, 8º e do 9º ano e estava tudo desenhado, ou seja, quase que não escrevia nada sobre as aulas. Até mesmo os livros estavam todos desenhados nas folhas, nas capas e tudo. Acho que no momento em que tive as primeiras cadeiras relacionadas com desenho eu percebi que ainda bem que eu segui isto porque não conseguia estar mesmo noutra área.

AM – E de que forma é que a formação que fizeste de Arte e Design te impulsionou pata outras coisas e te deu oportunidades que se calhar não terias dessa forma?

RLC – Em primeiro lugar deu-me esta oportunidade de estagiar no Museu Municipal de Coimbra, criar um projecto que esteve exposto durante 8 meses que foi o Afonso e o segredo da porta de Coimbra. Depois convidaram-me a expor aqui, a minha primeira exposição a solo, o que foi muito importante.

Antes disso também expusemos aqui, o nosso curso, na cadeira de Artes Plásticas, na exposição O Cerco, exposição de artes plásticas dos nossos auto-retratos e temas relacionados com a Torre, e ajudou-me porque tanto no secundário como na universidade, os professores sempre tiveram preocupação de os trabalhos serem expostos, ou seja, não eram só trabalhos para ficarem na gaveta ou para ter nota, eles tinham a preocupação de depois haver alguma visibilidade. Isso foi muito importante quando comecei a ver as minhas peças expostas a ver a reacção das pessoas, o que me motivou a fazer cada vez mais.

 


AM – Fala-nos um pouco das tuas influências: onde é que te inspiras? O que é que precisas de absorver para desenvolver o processo criativo?

 RLC – É assim, não te vou dizer que me sento na praia e fico completamente inspirado. Acho que são coisas muito reais que me inspiram, o dia-a-dia, as vivências, os fracassos, como as pessoas funcionam… o facto de observar, é muito à base disso que funciona. Depois tento criar uma metáfora a partir deste mundo, da realidade. Mas acho que o que me influencia muito é o dia-a-dia, as coisas normais, coisas reais e depois tenho muita influências de outros artistas, isso é essencial. Posso dizer um artista que sempre me inspirou muito que é o José Miguel Ribeiro que é um ilustrador e realizador de cinema português e acho que é isso, inspiro-me muito nele.

 

AM – Artisticamente falando, como é que descreves o teu trabalho? Talvez desde o início até onde chegaste agora.

RLC – Eu acho que desde cedo consegui desenvolver um traço que me identificasse e desde que entrei para a universidade tentei sempre que todos os meus trabalhos, mesmo não sendo relacionados com a ilustração, através do meu traço, através das minhas personagens e adaptando sempre ao tema, desenvolvessem uma identidade. Acho que o meu objectivo era que as pessoas olhassem e reconhecessem que o trabalho era meu. Ao longo do tempo foi se desenvolvendo isso mesmo, mas sempre tive essa preocupação.

Eu acho que tento sempre colocar um pouco de humor nas peças e entreter quem vai ver, ou seja, eu penso numa peça e em como é que eu quero que as pessoas a vejam, o que quero que as pessoas sintam. Quero que as pessoas sintam aquilo eu sinto quando vejo uma exposição, quando gosto ou seja quero entreter, mesmo os assuntos sérios abordar com um pouco de humor com grafismo forte e é nisso que tenho tentando manter um traço e uma identidade forte.

 

AM – E como é que é ter uma exposição a solo, num espaço que até tem a sua importância na cidade, e com o apoio da Câmara, que nem sempre é fácil? 

RLC – Nem sempre é fácil. É estranho porque de repente damos um salto, se calhar, maior do que a perna.

Eu estava com muito medo no início! Quando vim ver a galeria pensei: “Epá! Eu não vou conseguir encher isto. Como é que eu vou fazer isto?” mas foi uma questão de acreditar em mim e as pessoas acreditaram em mim também. Sabia que era uma boa oportunidade, talvez uma oportunidade única. Acabei de me licenciar e depois conseguir ter uma exposição a solo é de loucos, só é real quando vês realmente as coisas expostas e vês as pessoas a reagir e todo aquele trabalho que tu tiveste, suaste, as noites em que te deitaste tarde, às 5 da manhã, acabam a compensar tudo. É muito bom!

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AM – E qual é o papel conceito-base de toda a exposição?

RLC – Quando me fizeram a proposta pensei em vários temas para depois seguir um. Depois pensei que não queria ter uma temática só, queria abordar várias matérias e percebi rapidamente que essa matérias eram as minhas inquietações daí o nome “O Êxtase da Inquietação”.

O êxtase porque eu tentei aproximar, combinar, todas estas inquietações e dentro destas inquietudes estão os meus pensamentos, os meus fracassos, medos e temas como a morte, a vida, o sexo, o amor. Tudo isto muito relacionado comigo, com as minhas vivências, reais ou fictícias, e achei que, sendo sobre as minhas inquietações, sobre o que me faz pensar e o que mexe comigo, tentei conciliar o meu traço numa tentativa de ligar as peças dessa forma.

Mas é isso não havendo um tema central elas acabam por se interligar sendo pelo traço ou por serem temas que me inquietam.

AM – Como estavas a dizer a abrangência temática é muito grande. Achas que as artes são uma das mais perfeitas formas de exaltação do ser humano em tudo o que isso possa abarcar?      

RLC – Isso é uma pergunta interessante. É uma forma de expressão única porque é quase como se pudéssemos expor aqui para fora o que mais ninguém vê, não é? A nossa imaginação, a maneira como nós imaginamos os temas, não como os vemos mas sim como os sentimos, e pôr cá para fora. Abordar um tema como a morte é algo muito delicado, assim como a vida, e conseguirmos lançar esse tema cá para fora da forma como o sentimos é difícil mas é uma libertação!

“Libertamos um bocadinho de nós, fica sempre um bocado de nós em cada peça.”

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